Uruguai – Piriapolis

8 de março, dia internacional da mulher.

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Plaza de las mujeres, ainda em La Paloma

Dia de deixar La Paloma com destino a Piriapolis, passando pela famosa Punta Del Este, parada obrigatória que, para ser sincera, não achei tão encantadora quanto o que havia visto até ali, mas, justiça seja feita, é uma bela cidade.

 

Há dias em que tenho uma paciência gigantesca para esperar o melhor momento para fotografar em locais turísticos como La Mano Del Desierto, ali em Punta, e há dias em que eu realmente não tenho paciência alguma para esperar. Como podem conferir, o dia em Punta se enquadra neste segundo caso. Não sei bem explicar ao certo, mas creio que a medida em que viajamos sós e exploramos lugares mais tranquilos, torna-se um certo choque voltar para os locais mais populosos. Pelo menos eu me sinto assim, como se me forçassem a sair daquele estado de introspecção.

Rodei um pouco por Punta, fiz um retorno na contramão por engano, me perdi bastante até encontrar o caminho para Piriápolis, talvez porque entrei em Punta Del Leste por um trajeto diferente do habitual da maioria dos turistas e a partir daí me confundi com as direções. Felizmente nessa de errar caminhos, acabei passando duas vezes pela famosa ponte tobogã de La Barra que é muito, muito legal!

La Barra

Bastante vento depois, no meio daquela tarde cheguei ao meu destino, Piriápolis e, como tudo na vida é equilíbrio, para compensar o vento da estrada, encontrei uma praia de mar extremamente calmo, sem ondas. Me apressei para entrar naquele mar irresistível, já bem acostumada com as frias águas uruguaias.

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Mais uma tarde belíssima terminava. No caminho de volta ao hostel, passei por uma praça onde havia várias mulheres reunidas, música e animação. Sim, era uma comemoração pelo dia internacional da mulher. Me juntei a elas, ganhei uma faixa lilás (dos souvenirs mais belos que surgem em nosso caminho) que coloquei no cabelo e segui na caminhada com elas. Vários cartazes, uma diversidade de perfis que me chamou bastante atenção, unidas, numa mesma luta.

Refleti sobre a importância daquele dia para mim, uma mulher viajando sozinha de moto em outro país e naquele momento me senti extremamente livre e grata por isso. Também me senti extremamente acolhida, rodeada de sorrisos e olhares de força e de luta, linguagens universais.

À medida em que tomávamos a avenida beira-mar, o pôr-do-sol avançava. É preciso reforçar: um dos mais belos que já vivi. Uma linda e inesperada forma de terminar este dia tão significativo e seguir para descansar com um sentimento de gratidão imenso dentro do peito.

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Uruguai – Piriapolis

La Paloma

Sugestão de música para este relato de viagem, clique aqui para ouvir

Quando amanheceu em La Paloma, decidi caminhar até a praia. Levei um bom tempo neste pequeno trajeto pois havia muitas aves no caminho para observar, eu simplesmente não conseguia deixar de aprecia-las, ninho no poste, aves caminhando na calçada… (já contei sobre meu amor pelas aves não é?)

A praia… Um longo suspiro ao lembrar dela enquanto tento descrevê-la nestas linhas, como se fosse possível descrever La Paloma com palavras, com imagens, que não a experiência de estar ali. Uma praia belíssima, com muitas formações rochosas adentrando o mar e uma areia grossa, fofa, gostosa de pisar e forrada de conchas dos mais variados tipos e formas. Eu, adepta do “tire da natureza apenas fotos e leve apenas suas recordações” confesso que não resisti e comecei a pegar algumas conchas como recordação, enquanto sentia culpa e me perguntava como é que eu ía levar essas conchinhas delicadas na bagagem da moto de volta pro Brasil. Sim, eu dei um jeitinho e, no fim das contas, acho que não fui tão criminosa assim em minha coleta.

Passei aquele dia na praia, caminhando, contemplando e pensando na vida.

La Paloma, assim como Cabo Polonio, também tem seu farol, de onde parece que é possível avistar baleias em algumas épocas do ano e, embora eu não tenha vivido tamanha experiência, subir num farol pela primeira vez foi encantador.

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Em 1872, El Faro del Cabo de Santa Maria, já praticamente pronto, foi destruído por um forte temporal, e 17 pessoas morreram na “tragédia del faro”. Seus corpos foram sepultados próximo ao farol, num local chamado de “El Cementerio del Faro Viejo”. Conta-se que o farol estava sendo construído com água do mar, de difícil fixação dos materiais. Uma história triste sobre as forças da natureza e uma memória importante a ser mantida.

Um vídeo feito lá do alto do farol – clique aqui ;)

Meu dia em La Paloma terminou com um pôr-do-sol estonteante, que contemplei sentada nos rochedos da praia, com meus pés sendo tocados pelo mar. Dá pra imaginar? Até dá né, mas viver isso é indescritível. Se você não conhece este lugar, vá. Todo mundo precisa viver La Paloma. Se nada der certo nesta vida brasileira, eu vou me exilar ali e viver da minha arte, feita do que a natureza uruguaia dá :)

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 Foi sem dúvida o lugar do Uruguai que mais amei. Se você tiver um dia só naquele país, passe-o ali.

Eu voltei pro Brasil, mas um pouco do meu coração ficou lá, ou será que um pouco do lugar veio junto comigo?

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La Paloma

Uruguai: Punta Del Diablo-Cabo Polonio

Quando saí de casa, naquela manhã de fevereiro, eu nem imaginava que uns 15 dias depois estaria no Uruguai. Eu ía só até o Paraná, era apenas um passeio para espairecer, mas parece que eu precisava espairecer mais do que imaginava!

No último post eu falei em 2.500 km rodados até ali não foi? Negativo! Nossa memória nos trai, foram mais de 3.200 km ao chegar a fronteira Brasil-Uruguai, minha primeira fronteira de moto e isso tem um significado imenso.

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3.216 km

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Passada toda a euforia de cruzar a fronteira para outro país pilotando minha motocicleta, parei na Fortaleza de Santa Teresa, um belo forte com um espaço bem estruturado para camping, onde havia muitas barracas. Mas meu destino do dia era outro, o Parque Nacional de Cabo Polônio e eu nem imaginava quão mágico e inesquecível aquele lugar seria para mim.

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Segui pela Ruta 9 e passei por Punta Del Diablo, a primeira praia uruguaia que eu conhecia, linda e distante apenas 45 km do Chuí. Dali, mais 60 km e um pequeno desvio pelas Rutas 16 e 10 e estava na entrada do Parque Nacional de Cabo Polonio. Da entrada do parque até a praia são 7 km permitidos apenas nos veículos do parque, jipes que mais parecem caminhões ou a pé. Quando fiz o trajeto no jipe entendi. Cruzamos areiões imensos até chegar ao vilarejo à beira-mar, onde é possível pernoitar em algum dos diversos hostels.

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A praia é inacreditavelmente bela, daqueles lugares que você não se cansa de olhar e admirar. Passei um bom tempo apenas contemplando a paisagem, entrei no mar, geladinho porém muito bom, sentei na areia e decidi analisar o mapa da praia que havia pego na entrada do parque. E foi aí que me dei conta. O lugar que haviam me dito que poderia ver lobos-marinhos era ali, Cabo Polonio. Fui então aos pontos de avistamento, junto às rochas. Há uma separação por cercas, para segurança dos animais e dos visitantes, com uma plaquinha graciosa escrito “Lobería”, onde é possível avista-los de muito perto e eu os vi! Ali, pertinho de mim, lagarteando ao sol do fim do dia, às vezes se mexiam, se comunicavam uns com os outros. Foi muito emocionante. Eu amo animais e foi uma surpresa maravilhosa passar aquele tempo observando-os, em paz, como sempre deveria ser. Ali lamentei não estar com uma câmera fotográfica, uma lente zoom, fotografei somente no celular, mas o maior registro é sempre o que fica em nossa memória e coração. Eu estive com os lobos no Uruguai! E vou me lembrar para sempre daquele momento mágico.

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Os lobos-marinhos estão aí, é só reparar bem

 

Voltei com o jipe ao estacionamento do parque onde havia deixado a moto, ainda estava claro. Comi algumas empanadas na lanchonete (empanadas, outro amor!), conversei em português com o moço que me atendeu e descobri como os uruguaios nos recebem bem e como amam nosso país, querem falar nosso idioma e contar com orgulho sobre os lugares que conhecem do Brasil.

Decidi seguir até La Paloma, um lugar que a Samara Brochado, grande amiga com quem moro, (e que conheci através do motociclismo, inclusive!), havia recomendado fortemente. No caminho, mais um pôr-do-sol de tirar o fôlego.

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Cheguei a La Paloma no início da noite, abasteci a moto com a gasolina mais cara do universo, já que, não basta a gasolina daquele país ser cara, você precisa se enganar e pedir a super top ultra mega gasolina… Quando me dei conta do equívoco já era tarde.. R$ 5,00 o litro… garanto que dali para frente não mais errei!

Olhei pelo Booking e escolhi um hostel pela localização, a poucos metros de onde estava, que era perto da praia, perto do farol e também pelo nome: Arazá Hostel.  No dia seguinte eu descobriria o lugar para decidir se ficaria ou seguiria em frente.

E quem acompanhou as fotos que fui postando no Instagram, já sabe o que decidi não é? Mas logo contarei aqui.

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Uruguai: Punta Del Diablo-Cabo Polonio

Chuí, quase Uruguai

Papo bom, comida boa, cervejinha no fim do dia e o melhor café do mundo, mas eu tinha que ir embora! O Chuí me esperava! E o Uruguai!

Falei pro Daniel que sairia cedinho na manhã seguinte e ele ficou de me levar até a rodovia, para eu não precisar de GPS dentro da cidade.  A previsão do tempo era de chuva e eu até comentei que estava com dó de tira-lo de casa para andar tão pouco.

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Fomos seguindo até que paramos num posto e ele disse que não sabia até onde iria. Já tínhamos rodado uns 100 km. Ok! Fomos mais uns 100 e encontramos a chuva, torrencial.. parada rápida para colocar capa de chuva. Chuva ininterrupta, forte, fria, vento, spray de caminhão. Mais um posto de parada: “já que eu vim até aqui vou até o Chuí com você.”

Assim são os motociclistas.. nós nunca vamos deixar passar uma oportunidade de pegar estrada, ainda mais com companhia, eu sei bem.

Foi um dia chuvoso, um pouco frio, mas divertido no final. Chegamos ao Chuí no fim do dia, não sem antes termos uma pane seca. A moto do Daniel rendeu um pouco menos que o previsto dadas tantas condições adversas e o combustível acabou há uns 15 km da cidade (meio litro a mais resolveria), nós nos preocupamos em cuidar do combustível ao entrar na Reserva do Taim (são uns 100 km sem nenhum posto) e no final decidimos esperar para abastecer, mas faz parte. Busquei o combustível ali perto e já abasteci, mas minha moto tinha ainda uns 5 litros de gasolina. Enquanto o Daniel passou frio, molhado, esperando eu voltar, coitado, eu vi um pôr-do-sol lindo na estrada, enquanto tomava cuidado para não acelerar além dos 60 km/h permitido ali na região. Devo esse presente a ele.

Encontramos um hotel bem ruinzinho, mas só pra passar a noite. Daniel comprou um kit pra tomar um banho e ter o que vestir, afinal, ele saiu com a roupa do corpo, pra me levar logo ali, 20 km de casa e tomou uma chuva torrencial ao longo do dia, mesmo com capa não tinha como não molhar um pouco.

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No dia seguinte fui fazer o seguro carta verde para entrar no Uruguai, o Daniel não podia seguir pois estava sem RG, usa somente a CNH no dia-a-dia. Como é que um motociclista que mora tão perto (500 km!) do Uruguai sai de casa sem o RG e um kit básico de sobrevivência na estrada? Ele vai ouvir para o resto da vida isso de mim. Nunca subestime o seu poder de ir até ali, outro país, numa saidinha rápida de casa.

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Brasil-Uruguai: Fronteira da Barra do Chuí

Passamos o dia então na Barra do Chuí, sentamos à beira-mar, fazia sol e tinha um ventinho gelado, super agradável, eu que nunca gosto de ficar embaixo do sol nem por 5 minutos pois me queimo fácil, passei horas ali numa boa. No mercadinho tivemos indicação de cabanas para passar a noite, lugar chamado Route 66, aos pés da usina eólica, praticamente um sítio, com ovelhas, uma cabra filhote muito fofa (eu amo bichos!) e um senhor uruguaio com o qual conversamos bastante. Ele gostava de motos e achou que a minha moto era antiga, como todos no Uruguai achariam, descobri posteriormente.

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Passamos por tantos lugares lindos e só lembramos de tirar uma foto juntos no posto de gasolina do Chuí mesmo.  A vida é assim.

 

Na manhã seguinte nos despedimos, e segui para o Uruguai, com uma sensação indescritível de felicidade e uns 2.500 km rodados até ali.

Chuí, quase Uruguai

E olha só quem veio visitar São Paulo

Olha só quem veio visitar São Paulo! A Angelika, que conheci lá em Urubici.

Ela já está voltando para Áustria, mas deixando sua motocicleta no Brasil, porque quer retornar para conhecer mais deste nosso país imenso!

Muito feliz com essa nova amizade que nasceu na estrada.

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Vou compartilhar aqui com vocês o texto da Angie sobre sua motocicleta:


about the questions to my motorcycle ..
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I bought it in Colombia (24.12.2015 with 0 km ) and without any idea how to drive this bike .. so when the guy give me the key to my new travel buddy.I ask him “sorry, but can you show me how it works ?” (Image his Face , he lost it) But he was very Kind and i learn fast (two rounds around the corner then I left ) !
the BIG adventure starts …

until now I got 23.000 km ,we visit 7 country’s (Colombia , Ecuador,Peru ,Bolivia,Argentina,Chile and Brazil ) ,a lot of bad streets , off road , sand , stones and terrible traffic but i only had 1 flat tire all the way down and absolute no problem with the Mechanic (probably the only thing that I know about the technic is … how to put some air in it . I’m really good in this 😎) !
we went from the beaches , to the Andes (the highest point was 4540m ) we had all weather conditions (snow, rain , a lot of WIND , hot , cold ) and because of this we had 2 accident (some parts in the front was broken and I was a bit blue , nothing super dramatic)

…. there was also some difficult situation where I start asking myself ????

*WHY* you are doing this ?

I was crying because I couldn’t feel my fingers , or there was so much rain or a truck crashed me almost… but I survived and I’m still alive .. 🙏🏻👋🏼!

the maximum that I drive in one day was 1050 km it only takes 14 h (I can not listen anymore to my iPod)…
so everything is possible even with a small bike !

I love the Freedom what you get when you drive , I can go every time where ever I wanna go , I don’t need to take a bus or a taxi !

!!!!! this is my FREEDOM !!!

right now mi amor is waiting for me in brazil to continue the travel I hope I can return soon ! I’m pretty sure that I gona miss my Yamaha a lot but I know he is in good hands ! 🏍💪🏼✌🏾🙃😘 #yamaha#youaretheonlyone#love #adventure#aroundsouthamerica #freedom #nevergiveup#everythinghappensforareason #returninghome#justforabit #seeyousoon#keeptravelingtogether#promise

— em Austria


Lembram do que eu disse sobre pessoas inspiradoras?

E olha só quem veio visitar São Paulo

Das serras catarinenses para as serras gaúchas

Deixei Urubici! Foi pouco mais de uma semana, mas parecia que havia morado ali por muito tempo. Segui pela BR-282, sentido Lages, numa manhã de trânsito um tanto agitado. Tive que ajudar motoristas a fazer ultrapassagens por várias vezes, foi um trecho não muito agradável no começo, depois melhorou o tráfego, mas veio a chuva e isso me deixou um tanto chateada, muitos caminhões, muito spray da chuva e deles… Lá pelo horário do almoço parei num destes postos de atendimento ao usuário da rodovia (uma dica, tem sempre água, café, banheiros, wifi) e descansei um pouco ali, esperando meu ânimo melhorar. E melhorou. A chuva foi se dissipando também e quando cheguei à divisa de Santa Catarina com o Rio Grande do Sul a alegria se infiltrou novamente em mim.

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Um dia é longo o suficiente para começar ruim e mudar completamente

Pretendia seguir até Nova Petrópolis, onde encontraria o Daniel Chagas, o amigo gaúcho, e seguiríamos para Porto Alegre, mas ao chegar a Caxias do Sul mudei os planos. Eu havia subestimado a quantidade de serras que percorreria, e serras pedem velocidade menor, mais ultrapassagens, isso tomou mais tempo do que eu esperava, além da manhã não muito favorável que eu havia tido. Combinei com ele então que dormiria em Canela e nos encontraríamos lá na manhã seguinte. Por fim, foi uma ótima escolha, pois pudemos passear pela região, onde eu somente iria passar no plano inicial.

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A clássica e encantadora entrada de Gramado

Já em Canela, parei para tirar uma foto da Catedral de Pedra e quando estava checando o endereço do hostel, um rapaz veio conversar comigo. Ali na minha frente, um típico gaúcho, com seu sotaque e chimarrão na mão, olhou cada detalhe da minha moto, um apaixonado por bonnevilles, me contou com brilho nos olhos das viagens de moto que fez quando alugou uma BMW e explorou a América do Sul, me cumprimentou por minha viagem, entrou no carro e ainda ficou um tempinho me olhando de lá, acredito que tirou algumas fotos. Isso tudo é muito gostoso e eu lamento que estava extremamente cansada naquele dia e tive que fazer um pouco de esforço para ser atenciosa quando meu corpo pedia: vá para o hostel tomar um banho e relaxar, mas se não fossem esses encontros, não haveriam histórias não é mesmo? Nos cruzamos ainda em outra rua e o moço acenou e buzinou novamente e percebi como inspiramos as pessoas e trazemos à tona as boas recordações de viagens, fiquei grata pelos minutos que ganhei conversando com ele.

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Catedral de Pedra em Canela

Na manhã seguinte um abraço no amigo que não via há 4 anos, um passeio lindo pela barragem de São Francisco de Paula (vai bonneville, vai fazer off e andar nas pedras de cachoeira que você foi feita pra isso, rá!), uma pausa ainda em São Chico para comer um xis e prosear. (Dias depois eu saberia que um vendaval atingiu a cidade causando enorme destruição, ali onde sentamos e conversamos num dia lindo de sol, o ginásio havia desabado, tristeza sem fim senti e um respeito imenso pelas forças da natureza)

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Uma Intruder e uma Bonneville, claramente com vocação para ser trail

Dali descemos umas serras lindas  pela Rota do Sol e chegamos a Torres. Finalmente conheci uma praia no Rio Grande do Sul! E me encantei! A partir deste momento eu não permitiria mais que falassem que aquele estado não tinha belas praias. Vá a Praia da Guarita. Apenas vá. Foi um lugar que ficamos pouco pois seguiríamos a Porto Alegre preferencialmente antes de escurecer e pela primeira vez lamentei não mudar o cronograma e ficar um dia a mais ali.

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Torres e a praia gaúcha que me encantou

No dia seguinte fui conhecer Porto Alegre. Fazia um calor infernal. In-fer-nal. Almoçamos em frente ao Rio Guaíba e trovamos (não é proseamos, lá é trovamos) à sombra das árvores quando avistamos uma tempestade se formando. Saímos de lá no intuito de evita-la mas pegamos parte dela e eu achei o banho de chuva maravilhoso e curto, logo acabou, mas refrescou bastante, tornando o passeio mais agradável.

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Guaíba e o temporal

Passamos em frente ao Estádio Beira Rio (é na beira do rio mesmo, hehe), fomos ao mercado municipal, caminhamos pelo centro, que é muito parecido com o centro de São Paulo em sua arquitetura, estátuas, por vezes me senti em minha cidade, ali pelos lados da Avenida Nove de Julho, que já foi meu trajeto diário por um bom tempo. Depois fomos ao Parque Redenção e só então eu me dei conta da grandiosidade do Parque do Ibirapuera, e de São Paulo como um todo. Redenção é lindo e agradabilíssimo, mas nas proporções de uma capital bem menor. Proporção que talvez até então não fosse clara para mim, nascida e criada numa das maiores metrópoles do mundo. Um turbilhão de questionamentos sobre qualidade de vida nas grandes cidades tomou conta dos meus pensamentos.

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Os cuscos mais amorosos que eu já conheci na vida!

E depois do tour guiado pela capital gaúcha, foi hora de fazer os planos para seguir até o Chuí e finalmente: Uruguai!

Das serras catarinenses para as serras gaúchas

Mulheres viajantes, dúvidas das motociclistas e algumas dicas

Em minha última noite em Urubici, conheci a Angelika Hofer, uma austríaca que está viajando pela América do Sul há pouco mais de um ano. A Angie chegou na Motogaragem, vindo da Colômbia em uma moto YBR 125 que ela comprou para vir até o Brasil, viagem que para ela seria inviável sem a motocicleta.

 

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A felicidade da Angie: “Chega de chuva, definitivamente pronta para a praia.”

Eu tinha ido me despedir do Glauber e do pessoal de Brasília que havia estado por lá durante o feriado e conversei pouco com ela, mas o suficiente para se tornar um encontro especial para mim. Ela me mostrou a naturalidade de ter uma vida em sua cidade natal, trabalhar e sair para viajar, passar meses fora, depois retornar, trabalhar, seguir uma rotina, viajar de novo e eu ouvi tudo atentamente pois a Angie não sabia, mas ela me mostrava ali um outro universo. Aqui no Brasil, não temos toda essa cultura de explorar o mundo, seja pela realidade econômica ou pela distância geográfica mesmo e as mulheres enfrentam ainda a realidade dos índices de violência contra a mulher, um desafio a mais.

Se na estrada infelizmente vi pouquíssimas mulheres de moto (embora eu tenha muitas amigas que pilotam e viajam, sós ou acompanhadas), nos hostels onde me hospedei encontrei muitas mulheres viajando, a maioria sozinhas (em Colonia Del Sacramento éramos, uma brasileira, uma alemã e uma argentina no mesmo quarto), o que pra mim causa enorme felicidade, pelas experiências que podemos trocar e pela companhia, mas causa ainda um certo estranhamento para muitas pessoas.

Por onde passei, a pergunta que mais ouvi foi: Você está viajando sozinha? E em seguida: de moto? Sempre com muito espanto. – Toda mulher que viaja sozinha está sacudindo a cabeça agora e concordando comigo.

Sobre ser uma mulher viajando sozinha, bem, nada foi diferente dos cuidados habituais do dia a dia de uma mulher que vive numa grande cidade como São Paulo, que é o meu caso. Por estar de moto, me senti mais segura do que em outras viagens que fiz sozinha de avião/ônibus, pela autonomia de deslocamento que a moto representava para mim.

Muitas mulheres tem me procurado pedindo dicas, perguntando se tive problemas e tenho pensado muito no que dizer a elas e acho que a grande dica que posso dar não é de viagem e sim para a vida, algo que funciona para mim: tenha pessoas à sua volta que acreditem em você, que te estimulem a evoluir, mulheres ou homens, cerque-se dessas pessoas, aprenda e inspire-se nelas. E, nunca dispense um exemplo feminino. Encontre as mulheres que fazem o que você tem vontade de fazer, troque ideias, marque um café, enfim, perceba que você também pode. Elas estão fazendo! E se você não encontrar uma mulher fazendo o que você quer fazer, por favor, seja a pioneira! Abra caminho para as que virão!

Quando se fala do universo motociclismo, há uma predominância de homens, e é fácil distinguir quem te admira por ser uma mulher motociclista e quem tem até um discurso de admiração, mas não colabora em nada para que nosso dia a dia, dentro dos grupos de debate, eventos ou viagens seja mais prazeroso e ainda reclama que tem poucas mulheres!

Eu participo de diversos grupos sobre motos nas redes sociais, modero alguns, e encontro de tudo neste universo. Faço amizades belíssimas dentro destes ambientes, procuro responder dúvidas sempre que possível, também aprendo bastante, mas ainda vejo muita postagem de foto sexualizada de mulher, muita piadinha machista que, já em 2017, não sei quem ri, e isso é o tipo de coisa que afasta as mulheres do motociclismo. Não, não é porque mulher tem medo ou não gosta de moto, algumas gostam, outras não, mas o que não gostamos mesmo é de ficar aturando babaquice, preferimos investir nosso tempo com nossas amigas e amigos que nos fazem evoluir e que são companhias agradáveis.

Percebo ainda que alguns homens se incomodam quando respondo uma dúvida de mecânica, deixo um exemplo abaixo. Para estes, só o que tenho a dizer é: vai ter mulher de moto sim e se reclamar, vamos levar mais uma na garupa.

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Um pouco de humor na resposta, mas o assunto é sério.

Recebo muitos parabéns pela viagem e etc, adoro este carinho das pessoas mas queria deixar claro que não sou nenhuma heroína, sou uma mulher comum, buscando fazer o que gosta. E se eu consigo, você também consegue. Tenho minhas dificuldades (uma moto é alta, a outra é pesada), desafios a superar mas também tenho uma felicidade imensa de estar cercada de pessoas que me fazem evoluir, não tenho vergonha de pedir ajuda, procuro sempre estar aberta às opiniões e experiências e respeito meus limites. E, novamente, nunca dispenso um exemplo feminino.

Uma vez ouvi da Rosana Lourdes, uma motociclista experiente e que tenho como inspiração desde sempre: “você limita os teus limites”. A frase da Rosana nunca mais me saiu da cabeça. Sigo respeitando meus limites, porém, sempre tentando identificar o que é realmente limitação e o que é apenas limite psicológico que pode ser trabalhado.

Como motociclista, fiz dois cursos de pilotagem com foco em off road, um deles junto com um grupo de mulheres que conheci através do  Triumph Classic Lady Riders (que nada tem de exclusivo ou ligado a Triumph, apenas a paixão das criadoras do grupo pelas motos clássicas da marca, temos uma miscelânea maravilhosa de estilos e marcas de moto, se você é mulher motociclista, junte-se a nós) e nestes cursos adquiri habilidades essenciais para uma viagem como a que acabo de fazer, com uma moto naked e pesada, encarando algumas estradas de terra. Treinar é importantíssimo então, mulheres, vale a pena ficar de olho e acompanhar os próximos cursos e treinos que estamos planejando.

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Do dia em que juntamos um monte de motos naked e street pra subir e descer barranco, fazer slalom, tudo off road
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Algumas das Classic Lady Riders: amigas de estrada e de vida, grandes inspirações pra mim

Uma pergunta interessante que ouvi no Chuí de um rapaz logo depois que soube que estava vindo de São Paulo de moto sozinha e seguiria para o Uruguai: “você entende de mecânica?” – Posso não saber consertar mas sei identificar se houver um problema, respondi sorrindo. Tirando o fato de que um homem sozinho de moto dificilmente ouviria esta pergunta, achei uma consideração muito válida.

Sobre mecânica, me interesso em aprender e estou sempre atenta a isso, sei fazer algumas coisas, trocar óleo, filtro, pastilhas de freio, mas é preciso entender que, mesmo que você não saiba fazer tudo sozinha, é importante conhecer como as coisas funcionam e principalmente, conhecer a tua moto. E aqui falo para homens e mulheres pois temos um estranho hábito de deduzir que se é homem entende de mecânica, um mito. Muitos homens não entendem nada do funcionamento de suas motos e, na minha humilde opinião, seria importantíssimo saber ao menos o básico.

Nessa viagem estive sempre atenta ao nível do óleo, às condições dos pneus e condições gerais da moto, é dar uma volta mesmo ao redor da moto observando-a, isto pode evitar possíveis problemas. Há algum parafuso frouxo? Os cabos estão em ordem? Como estão os freios? Estes hábitos simples te fazem ter tanta afinidade com a máquina que qualquer som ou trepidação/comportamento diferente você irá sentir. Conhecer a autonomia de combustível, entender que a velocidade, condições climáticas e qualidade da gasolina podem interferir no consumo e se precaver quanto a isso também é importante, ou seja, não deixe para abastecer no limite. Saiba lubrificar a corrente e checar o estado da relação (se a tua moto não tem cardã), negligenciar isso pode danificar prematuramente toda a relação. E mesmo que você não tenha à mão o Motul que você ama, compre graxa, tem em todo lugar e é muito melhor que uma corrente seca. Saiba identificar se a corrente precisa ser esticada. São coisas simples, ninguém precisa ter cursado engenharia ou possuir super poderes para aprender. Precisamos desmistificar um pouco isso, tentarei fazer alguns vídeos e compartilhar o que tenho aprendido.

Na minha viagem não tive nenhum problema mecânico, a única coisa que precisei fazer foi apertar um parafuso da pedaleira, pois notei, num trecho de menor velocidade, uma certa trepidação logo abaixo do meu pé direito. A afinidade com a moto faz você perceber de onde pode vir o problema. Uma chave 12 resolveu. Não, eu não tinha uma chave 12 na minha bagagem, mas tive a sorte de ter parado bem em frente à uma loja de ferragens, mas mesmo sem essa ajuda do universo, uma chave de boca não é algo difícil de se conseguir. E quando você sabe a origem e do que precisa, fica mais fácil resolver o problema.

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Uma única chave necessária na viagem. Moto boa é a tua e bem cuidada.

Já quase em São Paulo, na inspeção de rotina, a voltinha em torno da moto, notei um parafuso bem frouxo, quase solto, que eu não sabia o que era. O Thiago me explicou que era o parafuso do coletor de admissão, que prende o coletor ao cabeçote. Desta vez, uma chave 8. Neste caso nem precisava saber o que era, bastava apertar o parafuso, mas aprender é importante.

Sobre rotas, mapas, eu traço as rotas no Google Maps do celular mesmo e vejo quais as opções, se há muitas rodovias, pergunto para alguém que sei que conhece melhor a região, ou faço uma pequena pesquisa sobre. Nem sempre o caminho mais curto é o melhor ou o mais agradável. Aprendi isso como ciclista e continua sendo uma verdade no motociclismo. Também é importante ver quais cidades estão no teu caminho. Tem capitais? Só cidades pequenas? Memorizo alguns nomes, nem sempre as placas indicam o teu destino, mas indicam a direção a seguir para chegar lá. Talvez você precise parar mais cedo do que o previsto por um problema mecânico ou só cansaço mesmo, tenha em mente as opções para isso.

Falando em cansaço, respeite o seu. Respeite seu corpo, sua mente, não exite em parar caso esteja com sono, fome, sede, muito calor, frio, enfim. Insistir com este tipo de desconforto te coloca em risco, porque diminui tua atenção e reflexos na pilotagem. E entenda que há dias/estradas/condições climáticas que rendem mais e que rendem menos, permita-se mudar o planejamento.

Sobre hospedagem, eu só reservo quando estou perto de parar, checo as opções no booking e sigo para lá, às vezes descubro opções boas a poucos metros de mim. Às vezes pergunto no posto de gasolina, consegui dicas boas assim.

E o mito de que mulher leva muita bagagem. Creio que bagagem tem muito mais a ver com a tua personalidade, estilo de vida do que com gênero. A vida mochileira me ensinou a levar somente o essencial, um aprendizado fácil quando você está carregando o peso nas costas. Na moto geralmente o espaço é pouco. Nesta viagem levei menos do que levaria se tivesse planejado sair de casa para viajar por 30 dias, mas me virei muito bem. Quando cansei de usar aquelas mesmas camisetas que obviamente fui lavando no caminho, comprei uma de viagem, já volta pra casa como um souvenir.  Carregar pouca coisa me deu uma sensação de liberdade muito grande. Às vezes precisava parar a moto carregada em algum lugar e ficava tranquila por não ter tanta coisa ou coisas muito valiosas em risco. (Minhas roupas, toalha, eram valiosíssimas pra mim,  ali, em viagem, mas não tinha eletrônicos e etc para chamar atenção ou correr risco de ter um prejuízo material)

E como você aprendeu sobre a mecânica da tua moto, monte um pequeno kit de ferramentas e leve-o. As chaves mais utilizadas, reparo rápido de pneu, lubrificante de corrente, abraçadeiras, mas também não queira carregar uma oficina com você. Mantenha tua moto sempre em ordem e precisará se precaver apenas para pequenos imprevistos.

Acho que essas são as dicas básicas, aprenda tudo que puder, ouça bastante, faça um filtro (desconfie de quem acha que sabe tudo), e cerque-se daqueles que te ajudam a evoluir e ficam felizes com o teu sucesso. No motociclismo e na vida né?

Fiquem a vontade para perguntar, o que eu souber responderei e o que eu não souber descobriremos juntos.

E queria deixar aqui mais uma referência feminina, cuja viagem me inspirou a ir além, a Rebeca Bonel, que pegou sua Biz 125 e rodou 8.000 quilômetros pela América do Sul. Simples assim.

Representatividade importa.

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Serra do Corvo Branco. 10 km de cascalho e pedras soltas com uma moto clássica. O maior desafio que já encarei com a bonneville. Eu fiz, você também faz.
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