Uruguai: Punta Del Diablo-Cabo Polonio

Quando saí de casa, naquela manhã de fevereiro, eu nem imaginava que uns 15 dias depois estaria no Uruguai. Eu ía só até o Paraná, era apenas um passeio para espairecer, mas parece que eu precisava espairecer mais do que imaginava!

No último post eu falei em 2.500 km rodados até ali não foi? Negativo! Nossa memória nos trai, foram mais de 3.200 km ao chegar a fronteira Brasil-Uruguai, minha primeira fronteira de moto e isso tem um significado imenso.

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3.216 km

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Passada toda a euforia de cruzar a fronteira para outro país pilotando minha motocicleta, parei na Fortaleza de Santa Teresa, um belo forte com um espaço bem estruturado para camping, onde havia muitas barracas. Mas meu destino do dia era outro, o Parque Nacional de Cabo Polônio e eu nem imaginava quão mágico e inesquecível aquele lugar seria para mim.

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Segui pela Ruta 9 e passei por Punta Del Diablo, a primeira praia uruguaia que eu conhecia, linda e distante apenas 45 km do Chuí. Dali, mais 60 km e um pequeno desvio pelas Rutas 16 e 10 e estava na entrada do Parque Nacional de Cabo Polonio. Da entrada do parque até a praia são 7 km permitidos apenas nos veículos do parque, jipes que mais parecem caminhões ou a pé. Quando fiz o trajeto no jipe entendi. Cruzamos areiões imensos até chegar ao vilarejo à beira-mar, onde é possível pernoitar em algum dos diversos hostels.

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A praia é inacreditavelmente bela, daqueles lugares que você não se cansa de olhar e admirar. Passei um bom tempo apenas contemplando a paisagem, entrei no mar, geladinho porém muito bom, sentei na areia e decidi analisar o mapa da praia que havia pego na entrada do parque. E foi aí que me dei conta. O lugar que haviam me dito que poderia ver lobos-marinhos era ali, Cabo Polonio. Fui então aos pontos de avistamento, junto às rochas. Há uma separação por cercas, para segurança dos animais e dos visitantes, com uma plaquinha graciosa escrito “Lobería”, onde é possível avista-los de muito perto e eu os vi! Ali, pertinho de mim, lagarteando ao sol do fim do dia, às vezes se mexiam, se comunicavam uns com os outros. Foi muito emocionante. Eu amo animais e foi uma surpresa maravilhosa passar aquele tempo observando-os, em paz, como sempre deveria ser. Ali lamentei não estar com uma câmera fotográfica, uma lente zoom, fotografei somente no celular, mas o maior registro é sempre o que fica em nossa memória e coração. Eu estive com os lobos no Uruguai! E vou me lembrar para sempre daquele momento mágico.

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Os lobos-marinhos estão aí, é só reparar bem

 

Voltei com o jipe ao estacionamento do parque onde havia deixado a moto, ainda estava claro. Comi algumas empanadas na lanchonete (empanadas, outro amor!), conversei em português com o moço que me atendeu e descobri como os uruguaios nos recebem bem e como amam nosso país, querem falar nosso idioma e contar com orgulho sobre os lugares que conhecem do Brasil.

Decidi seguir até La Paloma, um lugar que a Samara Brochado, grande amiga com quem moro, (e que conheci através do motociclismo, inclusive!), havia recomendado fortemente. No caminho, mais um pôr-do-sol de tirar o fôlego.

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Cheguei a La Paloma no início da noite, abasteci a moto com a gasolina mais cara do universo, já que, não basta a gasolina daquele país ser cara, você precisa se enganar e pedir a super top ultra mega gasolina… Quando me dei conta do equívoco já era tarde.. R$ 5,00 o litro… garanto que dali para frente não mais errei!

Olhei pelo Booking e escolhi um hostel pela localização, a poucos metros de onde estava, que era perto da praia, perto do farol e também pelo nome: Arazá Hostel.  No dia seguinte eu descobriria o lugar para decidir se ficaria ou seguiria em frente.

E quem acompanhou as fotos que fui postando no Instagram, já sabe o que decidi não é? Mas logo contarei aqui.

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Uruguai: Punta Del Diablo-Cabo Polonio

Chuí, quase Uruguai

Papo bom, comida boa, cervejinha no fim do dia e o melhor café do mundo, mas eu tinha que ir embora! O Chuí me esperava! E o Uruguai!

Falei pro Daniel que sairia cedinho na manhã seguinte e ele ficou de me levar até a rodovia, para eu não precisar de GPS dentro da cidade.  A previsão do tempo era de chuva e eu até comentei que estava com dó de tira-lo de casa para andar tão pouco.

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Fomos seguindo até que paramos num posto e ele disse que não sabia até onde iria. Já tínhamos rodado uns 100 km. Ok! Fomos mais uns 100 e encontramos a chuva, torrencial.. parada rápida para colocar capa de chuva. Chuva ininterrupta, forte, fria, vento, spray de caminhão. Mais um posto de parada: “já que eu vim até aqui vou até o Chuí com você.”

Assim são os motociclistas.. nós nunca vamos deixar passar uma oportunidade de pegar estrada, ainda mais com companhia, eu sei bem.

Foi um dia chuvoso, um pouco frio, mas divertido no final. Chegamos ao Chuí no fim do dia, não sem antes termos uma pane seca. A moto do Daniel rendeu um pouco menos que o previsto dadas tantas condições adversas e o combustível acabou há uns 15 km da cidade (meio litro a mais resolveria), nós nos preocupamos em cuidar do combustível ao entrar na Reserva do Taim (são uns 100 km sem nenhum posto) e no final decidimos esperar para abastecer, mas faz parte. Busquei o combustível ali perto e já abasteci, mas minha moto tinha ainda uns 5 litros de gasolina. Enquanto o Daniel passou frio, molhado, esperando eu voltar, coitado, eu vi um pôr-do-sol lindo na estrada, enquanto tomava cuidado para não acelerar além dos 60 km/h permitido ali na região. Devo esse presente a ele.

Encontramos um hotel bem ruinzinho, mas só pra passar a noite. Daniel comprou um kit pra tomar um banho e ter o que vestir, afinal, ele saiu com a roupa do corpo, pra me levar logo ali, 20 km de casa e tomou uma chuva torrencial ao longo do dia, mesmo com capa não tinha como não molhar um pouco.

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No dia seguinte fui fazer o seguro carta verde para entrar no Uruguai, o Daniel não podia seguir pois estava sem RG, usa somente a CNH no dia-a-dia. Como é que um motociclista que mora tão perto (500 km!) do Uruguai sai de casa sem o RG e um kit básico de sobrevivência na estrada? Ele vai ouvir para o resto da vida isso de mim. Nunca subestime o seu poder de ir até ali, outro país, numa saidinha rápida de casa.

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Brasil-Uruguai: Fronteira da Barra do Chuí

Passamos o dia então na Barra do Chuí, sentamos à beira-mar, fazia sol e tinha um ventinho gelado, super agradável, eu que nunca gosto de ficar embaixo do sol nem por 5 minutos pois me queimo fácil, passei horas ali numa boa. No mercadinho tivemos indicação de cabanas para passar a noite, lugar chamado Route 66, aos pés da usina eólica, praticamente um sítio, com ovelhas, uma cabra filhote muito fofa (eu amo bichos!) e um senhor uruguaio com o qual conversamos bastante. Ele gostava de motos e achou que a minha moto era antiga, como todos no Uruguai achariam, descobri posteriormente.

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Passamos por tantos lugares lindos e só lembramos de tirar uma foto juntos no posto de gasolina do Chuí mesmo.  A vida é assim.

 

Na manhã seguinte nos despedimos, e segui para o Uruguai, com uma sensação indescritível de felicidade e uns 2.500 km rodados até ali.

Chuí, quase Uruguai

E olha só quem veio visitar São Paulo

Olha só quem veio visitar São Paulo! A Angelika, que conheci lá em Urubici.

Ela já está voltando para Áustria, mas deixando sua motocicleta no Brasil, porque quer retornar para conhecer mais deste nosso país imenso!

Muito feliz com essa nova amizade que nasceu na estrada.

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Vou compartilhar aqui com vocês o texto da Angie sobre sua motocicleta:


about the questions to my motorcycle ..
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I bought it in Colombia (24.12.2015 with 0 km ) and without any idea how to drive this bike .. so when the guy give me the key to my new travel buddy.I ask him “sorry, but can you show me how it works ?” (Image his Face , he lost it) But he was very Kind and i learn fast (two rounds around the corner then I left ) !
the BIG adventure starts …

until now I got 23.000 km ,we visit 7 country’s (Colombia , Ecuador,Peru ,Bolivia,Argentina,Chile and Brazil ) ,a lot of bad streets , off road , sand , stones and terrible traffic but i only had 1 flat tire all the way down and absolute no problem with the Mechanic (probably the only thing that I know about the technic is … how to put some air in it . I’m really good in this 😎) !
we went from the beaches , to the Andes (the highest point was 4540m ) we had all weather conditions (snow, rain , a lot of WIND , hot , cold ) and because of this we had 2 accident (some parts in the front was broken and I was a bit blue , nothing super dramatic)

…. there was also some difficult situation where I start asking myself ????

*WHY* you are doing this ?

I was crying because I couldn’t feel my fingers , or there was so much rain or a truck crashed me almost… but I survived and I’m still alive .. 🙏🏻👋🏼!

the maximum that I drive in one day was 1050 km it only takes 14 h (I can not listen anymore to my iPod)…
so everything is possible even with a small bike !

I love the Freedom what you get when you drive , I can go every time where ever I wanna go , I don’t need to take a bus or a taxi !

!!!!! this is my FREEDOM !!!

right now mi amor is waiting for me in brazil to continue the travel I hope I can return soon ! I’m pretty sure that I gona miss my Yamaha a lot but I know he is in good hands ! 🏍💪🏼✌🏾🙃😘 #yamaha#youaretheonlyone#love #adventure#aroundsouthamerica #freedom #nevergiveup#everythinghappensforareason #returninghome#justforabit #seeyousoon#keeptravelingtogether#promise

— em Austria


Lembram do que eu disse sobre pessoas inspiradoras?

E olha só quem veio visitar São Paulo

Das serras catarinenses para as serras gaúchas

Deixei Urubici! Foi pouco mais de uma semana, mas parecia que havia morado ali por muito tempo. Segui pela BR-282, sentido Lages, numa manhã de trânsito um tanto agitado. Tive que ajudar motoristas a fazer ultrapassagens por várias vezes, foi um trecho não muito agradável no começo, depois melhorou o tráfego, mas veio a chuva e isso me deixou um tanto chateada, muitos caminhões, muito spray da chuva e deles… Lá pelo horário do almoço parei num destes postos de atendimento ao usuário da rodovia (uma dica, tem sempre água, café, banheiros, wifi) e descansei um pouco ali, esperando meu ânimo melhorar. E melhorou. A chuva foi se dissipando também e quando cheguei à divisa de Santa Catarina com o Rio Grande do Sul a alegria se infiltrou novamente em mim.

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Um dia é longo o suficiente para começar ruim e mudar completamente

Pretendia seguir até Nova Petrópolis, onde encontraria o Daniel Chagas, o amigo gaúcho, e seguiríamos para Porto Alegre, mas ao chegar a Caxias do Sul mudei os planos. Eu havia subestimado a quantidade de serras que percorreria, e serras pedem velocidade menor, mais ultrapassagens, isso tomou mais tempo do que eu esperava, além da manhã não muito favorável que eu havia tido. Combinei com ele então que dormiria em Canela e nos encontraríamos lá na manhã seguinte. Por fim, foi uma ótima escolha, pois pudemos passear pela região, onde eu somente iria passar no plano inicial.

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A clássica e encantadora entrada de Gramado

Já em Canela, parei para tirar uma foto da Catedral de Pedra e quando estava checando o endereço do hostel, um rapaz veio conversar comigo. Ali na minha frente, um típico gaúcho, com seu sotaque e chimarrão na mão, olhou cada detalhe da minha moto, um apaixonado por bonnevilles, me contou com brilho nos olhos das viagens de moto que fez quando alugou uma BMW e explorou a América do Sul, me cumprimentou por minha viagem, entrou no carro e ainda ficou um tempinho me olhando de lá, acredito que tirou algumas fotos. Isso tudo é muito gostoso e eu lamento que estava extremamente cansada naquele dia e tive que fazer um pouco de esforço para ser atenciosa quando meu corpo pedia: vá para o hostel tomar um banho e relaxar, mas se não fossem esses encontros, não haveriam histórias não é mesmo? Nos cruzamos ainda em outra rua e o moço acenou e buzinou novamente e percebi como inspiramos as pessoas e trazemos à tona as boas recordações de viagens, fiquei grata pelos minutos que ganhei conversando com ele.

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Catedral de Pedra em Canela

Na manhã seguinte um abraço no amigo que não via há 4 anos, um passeio lindo pela barragem de São Francisco de Paula (vai bonneville, vai fazer off e andar nas pedras de cachoeira que você foi feita pra isso, rá!), uma pausa ainda em São Chico para comer um xis e prosear. (Dias depois eu saberia que um vendaval atingiu a cidade causando enorme destruição, ali onde sentamos e conversamos num dia lindo de sol, o ginásio havia desabado, tristeza sem fim senti e um respeito imenso pelas forças da natureza)

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Uma Intruder e uma Bonneville, claramente com vocação para ser trail

Dali descemos umas serras lindas  pela Rota do Sol e chegamos a Torres. Finalmente conheci uma praia no Rio Grande do Sul! E me encantei! A partir deste momento eu não permitiria mais que falassem que aquele estado não tinha belas praias. Vá a Praia da Guarita. Apenas vá. Foi um lugar que ficamos pouco pois seguiríamos a Porto Alegre preferencialmente antes de escurecer e pela primeira vez lamentei não mudar o cronograma e ficar um dia a mais ali.

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Torres e a praia gaúcha que me encantou

No dia seguinte fui conhecer Porto Alegre. Fazia um calor infernal. In-fer-nal. Almoçamos em frente ao Rio Guaíba e trovamos (não é proseamos, lá é trovamos) à sombra das árvores quando avistamos uma tempestade se formando. Saímos de lá no intuito de evita-la mas pegamos parte dela e eu achei o banho de chuva maravilhoso e curto, logo acabou, mas refrescou bastante, tornando o passeio mais agradável.

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Guaíba e o temporal

Passamos em frente ao Estádio Beira Rio (é na beira do rio mesmo, hehe), fomos ao mercado municipal, caminhamos pelo centro, que é muito parecido com o centro de São Paulo em sua arquitetura, estátuas, por vezes me senti em minha cidade, ali pelos lados da Avenida Nove de Julho, que já foi meu trajeto diário por um bom tempo. Depois fomos ao Parque Redenção e só então eu me dei conta da grandiosidade do Parque do Ibirapuera, e de São Paulo como um todo. Redenção é lindo e agradabilíssimo, mas nas proporções de uma capital bem menor. Proporção que talvez até então não fosse clara para mim, nascida e criada numa das maiores metrópoles do mundo. Um turbilhão de questionamentos sobre qualidade de vida nas grandes cidades tomou conta dos meus pensamentos.

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Os cuscos mais amorosos que eu já conheci na vida!

E depois do tour guiado pela capital gaúcha, foi hora de fazer os planos para seguir até o Chuí e finalmente: Uruguai!

Das serras catarinenses para as serras gaúchas