Uruguai: Punta Del Diablo-Cabo Polonio

Quando saí de casa, naquela manhã de fevereiro, eu nem imaginava que uns 15 dias depois estaria no Uruguai. Eu ía só até o Paraná, era apenas um passeio para espairecer, mas parece que eu precisava espairecer mais do que imaginava!

No último post eu falei em 2.500 km rodados até ali não foi? Negativo! Nossa memória nos trai, foram mais de 3.200 km ao chegar a fronteira Brasil-Uruguai, minha primeira fronteira de moto e isso tem um significado imenso.

aaaa
3.216 km

P_20170306_110406

Passada toda a euforia de cruzar a fronteira para outro país pilotando minha motocicleta, parei na Fortaleza de Santa Teresa, um belo forte com um espaço bem estruturado para camping, onde havia muitas barracas. Mas meu destino do dia era outro, o Parque Nacional de Cabo Polônio e eu nem imaginava quão mágico e inesquecível aquele lugar seria para mim.

P_20170306_115308_PN

P_20170306_120035_BF

Segui pela Ruta 9 e passei por Punta Del Diablo, a primeira praia uruguaia que eu conhecia, linda e distante apenas 45 km do Chuí. Dali, mais 60 km e um pequeno desvio pelas Rutas 16 e 10 e estava na entrada do Parque Nacional de Cabo Polonio. Da entrada do parque até a praia são 7 km permitidos apenas nos veículos do parque, jipes que mais parecem caminhões ou a pé. Quando fiz o trajeto no jipe entendi. Cruzamos areiões imensos até chegar ao vilarejo à beira-mar, onde é possível pernoitar em algum dos diversos hostels.

P_20170306_155312_PN

A praia é inacreditavelmente bela, daqueles lugares que você não se cansa de olhar e admirar. Passei um bom tempo apenas contemplando a paisagem, entrei no mar, geladinho porém muito bom, sentei na areia e decidi analisar o mapa da praia que havia pego na entrada do parque. E foi aí que me dei conta. O lugar que haviam me dito que poderia ver lobos-marinhos era ali, Cabo Polonio. Fui então aos pontos de avistamento, junto às rochas. Há uma separação por cercas, para segurança dos animais e dos visitantes, com uma plaquinha graciosa escrito “Lobería”, onde é possível avista-los de muito perto e eu os vi! Ali, pertinho de mim, lagarteando ao sol do fim do dia, às vezes se mexiam, se comunicavam uns com os outros. Foi muito emocionante. Eu amo animais e foi uma surpresa maravilhosa passar aquele tempo observando-os, em paz, como sempre deveria ser. Ali lamentei não estar com uma câmera fotográfica, uma lente zoom, fotografei somente no celular, mas o maior registro é sempre o que fica em nossa memória e coração. Eu estive com os lobos no Uruguai! E vou me lembrar para sempre daquele momento mágico.

P_20170306_160140P_20170306_165610_PN

P_20170306_164657
Os lobos-marinhos estão aí, é só reparar bem

 

Voltei com o jipe ao estacionamento do parque onde havia deixado a moto, ainda estava claro. Comi algumas empanadas na lanchonete (empanadas, outro amor!), conversei em português com o moço que me atendeu e descobri como os uruguaios nos recebem bem e como amam nosso país, querem falar nosso idioma e contar com orgulho sobre os lugares que conhecem do Brasil.

Decidi seguir até La Paloma, um lugar que a Samara Brochado, grande amiga com quem moro, (e que conheci através do motociclismo, inclusive!), havia recomendado fortemente. No caminho, mais um pôr-do-sol de tirar o fôlego.

P_20170306_185553

 

Cheguei a La Paloma no início da noite, abasteci a moto com a gasolina mais cara do universo, já que, não basta a gasolina daquele país ser cara, você precisa se enganar e pedir a super top ultra mega gasolina… Quando me dei conta do equívoco já era tarde.. R$ 5,00 o litro… garanto que dali para frente não mais errei!

Olhei pelo Booking e escolhi um hostel pela localização, a poucos metros de onde estava, que era perto da praia, perto do farol e também pelo nome: Arazá Hostel.  No dia seguinte eu descobriria o lugar para decidir se ficaria ou seguiria em frente.

E quem acompanhou as fotos que fui postando no Instagram, já sabe o que decidi não é? Mas logo contarei aqui.

P_20170306_170849

Anúncios
Uruguai: Punta Del Diablo-Cabo Polonio

Mulheres viajantes, dúvidas das motociclistas e algumas dicas

Em minha última noite em Urubici, conheci a Angelika Hofer, uma austríaca que está viajando pela América do Sul há pouco mais de um ano. A Angie chegou na Motogaragem, vindo da Colômbia em uma moto YBR 125 que ela comprou para vir até o Brasil, viagem que para ela seria inviável sem a motocicleta.

 

Angie
A felicidade da Angie: “Chega de chuva, definitivamente pronta para a praia.”

Eu tinha ido me despedir do Glauber e do pessoal de Brasília que havia estado por lá durante o feriado e conversei pouco com ela, mas o suficiente para se tornar um encontro especial para mim. Ela me mostrou a naturalidade de ter uma vida em sua cidade natal, trabalhar e sair para viajar, passar meses fora, depois retornar, trabalhar, seguir uma rotina, viajar de novo e eu ouvi tudo atentamente pois a Angie não sabia, mas ela me mostrava ali um outro universo. Aqui no Brasil, não temos toda essa cultura de explorar o mundo, seja pela realidade econômica ou pela distância geográfica mesmo e as mulheres enfrentam ainda a realidade dos índices de violência contra a mulher, um desafio a mais.

Se na estrada infelizmente vi pouquíssimas mulheres de moto (embora eu tenha muitas amigas que pilotam e viajam, sós ou acompanhadas), nos hostels onde me hospedei encontrei muitas mulheres viajando, a maioria sozinhas (em Colonia Del Sacramento éramos, uma brasileira, uma alemã e uma argentina no mesmo quarto), o que pra mim causa enorme felicidade, pelas experiências que podemos trocar e pela companhia, mas causa ainda um certo estranhamento para muitas pessoas.

Por onde passei, a pergunta que mais ouvi foi: Você está viajando sozinha? E em seguida: de moto? Sempre com muito espanto. – Toda mulher que viaja sozinha está sacudindo a cabeça agora e concordando comigo.

Sobre ser uma mulher viajando sozinha, bem, nada foi diferente dos cuidados habituais do dia a dia de uma mulher que vive numa grande cidade como São Paulo, que é o meu caso. Por estar de moto, me senti mais segura do que em outras viagens que fiz sozinha de avião/ônibus, pela autonomia de deslocamento que a moto representava para mim.

Muitas mulheres tem me procurado pedindo dicas, perguntando se tive problemas e tenho pensado muito no que dizer a elas e acho que a grande dica que posso dar não é de viagem e sim para a vida, algo que funciona para mim: tenha pessoas à sua volta que acreditem em você, que te estimulem a evoluir, mulheres ou homens, cerque-se dessas pessoas, aprenda e inspire-se nelas. E, nunca dispense um exemplo feminino. Encontre as mulheres que fazem o que você tem vontade de fazer, troque ideias, marque um café, enfim, perceba que você também pode. Elas estão fazendo! E se você não encontrar uma mulher fazendo o que você quer fazer, por favor, seja a pioneira! Abra caminho para as que virão!

Quando se fala do universo motociclismo, há uma predominância de homens, e é fácil distinguir quem te admira por ser uma mulher motociclista e quem tem até um discurso de admiração, mas não colabora em nada para que nosso dia a dia, dentro dos grupos de debate, eventos ou viagens seja mais prazeroso e ainda reclama que tem poucas mulheres!

Eu participo de diversos grupos sobre motos nas redes sociais, modero alguns, e encontro de tudo neste universo. Faço amizades belíssimas dentro destes ambientes, procuro responder dúvidas sempre que possível, também aprendo bastante, mas ainda vejo muita postagem de foto sexualizada de mulher, muita piadinha machista que, já em 2017, não sei quem ri, e isso é o tipo de coisa que afasta as mulheres do motociclismo. Não, não é porque mulher tem medo ou não gosta de moto, algumas gostam, outras não, mas o que não gostamos mesmo é de ficar aturando babaquice, preferimos investir nosso tempo com nossas amigas e amigos que nos fazem evoluir e que são companhias agradáveis.

Percebo ainda que alguns homens se incomodam quando respondo uma dúvida de mecânica, deixo um exemplo abaixo. Para estes, só o que tenho a dizer é: vai ter mulher de moto sim e se reclamar, vamos levar mais uma na garupa.

grupo
Um pouco de humor na resposta, mas o assunto é sério.

Recebo muitos parabéns pela viagem e etc, adoro este carinho das pessoas mas queria deixar claro que não sou nenhuma heroína, sou uma mulher comum, buscando fazer o que gosta. E se eu consigo, você também consegue. Tenho minhas dificuldades (uma moto é alta, a outra é pesada), desafios a superar mas também tenho uma felicidade imensa de estar cercada de pessoas que me fazem evoluir, não tenho vergonha de pedir ajuda, procuro sempre estar aberta às opiniões e experiências e respeito meus limites. E, novamente, nunca dispenso um exemplo feminino.

Uma vez ouvi da Rosana Lourdes, uma motociclista experiente e que tenho como inspiração desde sempre: “você limita os teus limites”. A frase da Rosana nunca mais me saiu da cabeça. Sigo respeitando meus limites, porém, sempre tentando identificar o que é realmente limitação e o que é apenas limite psicológico que pode ser trabalhado.

Como motociclista, fiz dois cursos de pilotagem com foco em off road, um deles junto com um grupo de mulheres que conheci através do  Triumph Classic Lady Riders (que nada tem de exclusivo ou ligado a Triumph, apenas a paixão das criadoras do grupo pelas motos clássicas da marca, temos uma miscelânea maravilhosa de estilos e marcas de moto, se você é mulher motociclista, junte-se a nós) e nestes cursos adquiri habilidades essenciais para uma viagem como a que acabo de fazer, com uma moto naked e pesada, encarando algumas estradas de terra. Treinar é importantíssimo então, mulheres, vale a pena ficar de olho e acompanhar os próximos cursos e treinos que estamos planejando.

13987482_10202165977627641_1646031462649434533_o
Do dia em que juntamos um monte de motos naked e street pra subir e descer barranco, fazer slalom, tudo off road
13926007_10202165978867672_6098274335315189167_o
Algumas das Classic Lady Riders: amigas de estrada e de vida, grandes inspirações pra mim

Uma pergunta interessante que ouvi no Chuí de um rapaz logo depois que soube que estava vindo de São Paulo de moto sozinha e seguiria para o Uruguai: “você entende de mecânica?” – Posso não saber consertar mas sei identificar se houver um problema, respondi sorrindo. Tirando o fato de que um homem sozinho de moto dificilmente ouviria esta pergunta, achei uma consideração muito válida.

Sobre mecânica, me interesso em aprender e estou sempre atenta a isso, sei fazer algumas coisas, trocar óleo, filtro, pastilhas de freio, mas é preciso entender que, mesmo que você não saiba fazer tudo sozinha, é importante conhecer como as coisas funcionam e principalmente, conhecer a tua moto. E aqui falo para homens e mulheres pois temos um estranho hábito de deduzir que se é homem entende de mecânica, um mito. Muitos homens não entendem nada do funcionamento de suas motos e, na minha humilde opinião, seria importantíssimo saber ao menos o básico.

Nessa viagem estive sempre atenta ao nível do óleo, às condições dos pneus e condições gerais da moto, é dar uma volta mesmo ao redor da moto observando-a, isto pode evitar possíveis problemas. Há algum parafuso frouxo? Os cabos estão em ordem? Como estão os freios? Estes hábitos simples te fazem ter tanta afinidade com a máquina que qualquer som ou trepidação/comportamento diferente você irá sentir. Conhecer a autonomia de combustível, entender que a velocidade, condições climáticas e qualidade da gasolina podem interferir no consumo e se precaver quanto a isso também é importante, ou seja, não deixe para abastecer no limite. Saiba lubrificar a corrente e checar o estado da relação (se a tua moto não tem cardã), negligenciar isso pode danificar prematuramente toda a relação. E mesmo que você não tenha à mão o Motul que você ama, compre graxa, tem em todo lugar e é muito melhor que uma corrente seca. Saiba identificar se a corrente precisa ser esticada. São coisas simples, ninguém precisa ter cursado engenharia ou possuir super poderes para aprender. Precisamos desmistificar um pouco isso, tentarei fazer alguns vídeos e compartilhar o que tenho aprendido.

Na minha viagem não tive nenhum problema mecânico, a única coisa que precisei fazer foi apertar um parafuso da pedaleira, pois notei, num trecho de menor velocidade, uma certa trepidação logo abaixo do meu pé direito. A afinidade com a moto faz você perceber de onde pode vir o problema. Uma chave 12 resolveu. Não, eu não tinha uma chave 12 na minha bagagem, mas tive a sorte de ter parado bem em frente à uma loja de ferragens, mas mesmo sem essa ajuda do universo, uma chave de boca não é algo difícil de se conseguir. E quando você sabe a origem e do que precisa, fica mais fácil resolver o problema.

chave
Uma única chave necessária na viagem. Moto boa é a tua e bem cuidada.

Já quase em São Paulo, na inspeção de rotina, a voltinha em torno da moto, notei um parafuso bem frouxo, quase solto, que eu não sabia o que era. O Thiago me explicou que era o parafuso do coletor de admissão, que prende o coletor ao cabeçote. Desta vez, uma chave 8. Neste caso nem precisava saber o que era, bastava apertar o parafuso, mas aprender é importante.

Sobre rotas, mapas, eu traço as rotas no Google Maps do celular mesmo e vejo quais as opções, se há muitas rodovias, pergunto para alguém que sei que conhece melhor a região, ou faço uma pequena pesquisa sobre. Nem sempre o caminho mais curto é o melhor ou o mais agradável. Aprendi isso como ciclista e continua sendo uma verdade no motociclismo. Também é importante ver quais cidades estão no teu caminho. Tem capitais? Só cidades pequenas? Memorizo alguns nomes, nem sempre as placas indicam o teu destino, mas indicam a direção a seguir para chegar lá. Talvez você precise parar mais cedo do que o previsto por um problema mecânico ou só cansaço mesmo, tenha em mente as opções para isso.

Falando em cansaço, respeite o seu. Respeite seu corpo, sua mente, não exite em parar caso esteja com sono, fome, sede, muito calor, frio, enfim. Insistir com este tipo de desconforto te coloca em risco, porque diminui tua atenção e reflexos na pilotagem. E entenda que há dias/estradas/condições climáticas que rendem mais e que rendem menos, permita-se mudar o planejamento.

Sobre hospedagem, eu só reservo quando estou perto de parar, checo as opções no booking e sigo para lá, às vezes descubro opções boas a poucos metros de mim. Às vezes pergunto no posto de gasolina, consegui dicas boas assim.

E o mito de que mulher leva muita bagagem. Creio que bagagem tem muito mais a ver com a tua personalidade, estilo de vida do que com gênero. A vida mochileira me ensinou a levar somente o essencial, um aprendizado fácil quando você está carregando o peso nas costas. Na moto geralmente o espaço é pouco. Nesta viagem levei menos do que levaria se tivesse planejado sair de casa para viajar por 30 dias, mas me virei muito bem. Quando cansei de usar aquelas mesmas camisetas que obviamente fui lavando no caminho, comprei uma de viagem, já volta pra casa como um souvenir.  Carregar pouca coisa me deu uma sensação de liberdade muito grande. Às vezes precisava parar a moto carregada em algum lugar e ficava tranquila por não ter tanta coisa ou coisas muito valiosas em risco. (Minhas roupas, toalha, eram valiosíssimas pra mim,  ali, em viagem, mas não tinha eletrônicos e etc para chamar atenção ou correr risco de ter um prejuízo material)

E como você aprendeu sobre a mecânica da tua moto, monte um pequeno kit de ferramentas e leve-o. As chaves mais utilizadas, reparo rápido de pneu, lubrificante de corrente, abraçadeiras, mas também não queira carregar uma oficina com você. Mantenha tua moto sempre em ordem e precisará se precaver apenas para pequenos imprevistos.

Acho que essas são as dicas básicas, aprenda tudo que puder, ouça bastante, faça um filtro (desconfie de quem acha que sabe tudo), e cerque-se daqueles que te ajudam a evoluir e ficam felizes com o teu sucesso. No motociclismo e na vida né?

Fiquem a vontade para perguntar, o que eu souber responderei e o que eu não souber descobriremos juntos.

E queria deixar aqui mais uma referência feminina, cuja viagem me inspirou a ir além, a Rebeca Bonel, que pegou sua Biz 125 e rodou 8.000 quilômetros pela América do Sul. Simples assim.

Representatividade importa.

17240699_10208611612387352_5065476339284666464_o
Serra do Corvo Branco. 10 km de cascalho e pedras soltas com uma moto clássica. O maior desafio que já encarei com a bonneville. Eu fiz, você também faz.
Mulheres viajantes, dúvidas das motociclistas e algumas dicas