Florianópolis – Urubici (e a vontade de viver no interior)

 

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Pausa no mirante para contemplar o amanhecer na ilha

Saí bem cedo de Florianópolis para evitar o trânsito mais pesado e segui rumo a BR-282, uma estrada belíssima que dá acesso a Serra do Panelão, caminho para Urubici.

Parei para tomar um café e um senhor me recebeu dizendo “obrigado pelo gentileza!” – explicou que eu havia cedido passagem para ele na estrada, há pouco. Tive então companhia e prosa durante o café.

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Chegar a Urubici foi especial. É bom conhecer lugares novos mas também é muito bom voltar aos lugares que te trazem boas lembranças e isso é uma coisa que me encanta em viajar de moto, a facilidade de retornar.

Reencontrei o Glauber e pude ouvir e me inspirar com suas histórias de viagem e da vida.

O feriado de carnaval se aproximava e o Thiago, ficou animado em ir até Urubici me encontrar e passear pelas serras, já a mãe dele, Fátima Santos, a cicloturista que já subiu a Serra do Rio do Rastro pedalando, ficou ainda mais animada em ir de garupa com ele também. Pronto, estava feito o plano da semana. Decidi então ficar por ali, explorando as serras e aguardando os paulistanos.

O clima da serra me encantou. Fazia muito calor durante o dia, então procurávamos sair de manhã ou mais para o fim do dia, quando as temperaturas caíam bem. Vivi dias de interior e descobri um caminho para a paz. A tranquilidade do trânsito, das pessoas, o comércio local, as verduras fresquinhas, o suco natural, as aves, o silêncio, tudo tão simples e perfeito.

O Glauber me mostrou o Morro do Campestre que eu ainda não conhecia, uns 15 km de estrada de chão boa até chegar numa trilha que sobe até o alto do morro, com uma vista belíssima.

 

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Moto clássica faz off road sim!

 

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Trilha de 30 minutos caminhando tranquilamente e contemplando o lugar
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No alto do Morro do Campestre

Foi ele também quem me acompanhou até a Serra do Corvo Branco, onde encarei meu maior desafio com a bonneville,  10 km de cascalho e pedras soltas, um esforço totalmente recompensado pela beleza do lugar. Mesmo já tendo estado ali, me surpreendi com a altura daqueles paredões de pedra e o som que ecoa pelas fendas das rochas. Nenhuma foto ou vídeo é capaz de refletir tamanha imensidão. É ir e ver.

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A felicidade de superar limites. Registro do Glauber Leite daquele momento tão especial para mim.

 

Nos demais dias fui até o Morro da Igreja, com sorte de um tempo extremamente aberto e, claro, até a Serra do Rio do Rastro. As estradas de Urubici até estes dois pontos também são incrivelmente belas, cenários perfeitos para muitas reflexões sobre a vida que me foram surgindo.

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Estrada do Morro da Igreja e a belíssima vegetação da região

 

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Tempo tão aberto a 1.822m de altitude que permite uma selfie com a Pedra Furada ao fundo, é muita, muita sorte. E eu sou uma garota de sorte.

No mirante do Rio do Rastro conversei com um viajante carioca que, segundo ele, não era motociclista, estava motociclista. Retornava de uma viagem de 14.000 km pela América do Sul e me contava com uma serenidade cativante em sua fala. Ao fim me perguntou quando eu voltaria a São Paulo ao que respondi com a maior sinceridade e um sorriso no rosto: eu não sei.

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Mirante da Serra do Rio do Rastro

Ouvir as histórias de viagem das pessoas que encontrava no caminho me fazia querer ir cada vez mais longe, era a energia que eu precisava.  Em algum momento que não sei precisar decidi que iria até o Uruguai. Talvez Argentina. Por que não Atacama? Bem, já estávamos falando em cruzar o deserto, existiam algumas limitações, mas naquele momento elas pouco importavam, eu já estava na estrada e tudo que eu queria era aproveitar a oportunidade ao máximo. Ouvimos que o maior desafio é dar o primeiro passo e é a mais pura verdade.

 

Comprei um caderninho para anotar os lugares imperdíveis e as dicas do Glauber e fui deixando que os pensamentos fluíssem livremente. Sim, eu iria até o Uruguai. Com a liberdade de virar e voltar quando sentisse vontade. Ou avançar um pouco mais, quem sabe. O importante naquele momento eram as possibilidades abertas. Provei a liberdade. E gostei.

Passar o feriado com o Thiago e a mãe dele foi muito gostoso, apesar de corrido para eles que tinham data para voltar a São Paulo. E se eu tinha alguma dúvida em seguir ou não viajando, os dois estavam ali pra dizer: vá! Thiago se prontificou a cuidar dos meus gatos em casa e me incentivou assim como sempre incentiva na vida.

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Gratidão pelas pessoas incríveis em minha vida

Desci a Serra do Rio do Rastro com eles e lá embaixo nos despedimos. O coração apertou sim, mas por vê-los partir e não por querer voltar. Subi aquela serra magnífica e peguei a estrada até Urubici, na manhã seguinte seguiria para o Rio Grande do Sul.

 

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Florianópolis – Urubici (e a vontade de viver no interior)

Motogaragem Urubici

Colaboração minha para a revista Motociclismo falando sobre a Motogaragem, pousada exclusiva para motociclistas em Urubici. Chega de estacionar a moto no cantinho :P

Veja aqui: http://www.motorpress.com.br/moto/especiais/especiais/motogaragem-parada-obrigatoria-em-urubici/

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Motogaragem Urubici

São Paulo – Rio Grande do Sul – 2.671 kms, 9 dias

Pedacinho do sul desbravado..
Pedacinho do sul desbravado..

Olhando agora fotos, vídeos, mapas.. caracas! Rodei mesmo tudo isso?

É, foi um desafio e tanto. Enfiei a motoca em cada estrada que olha…  mas valeu muito a pena!

Fomos de São Paulo até Curitiba debaixo de toda a chuva do universo (obrigada Riffel por fazer jaquetas impermeáveis de verdade, a Nômade por manter meus pés sequinhos dentro da bota e a boa e velha calça da Passo Bom por manter as pernas secas mesmo depois de vivenciar o dilúvio na estrada).

Intruder 250, XT 600 e Ténéré 250, ainda secas e limpinhas, na divisa PR-SC
Intruder 250, XT 600 e Ténéré 250, ainda secas e limpinhas, na divisa PR-SC

Deixamos o Guga, nosso amigo e excelente companhia de estrada em Floripa. Dali fomos até Urubici-SC no melhor estilo Enduro (aquele joguinho do Atari, onde você mal enxerga a pista – é, tenso..) e encontramos o Daniel Chagas, o amigo virtual de anos, cujas mensagens agora leio com sotaque gaúcho! Seguimos os três  para o Morro da Igreja (é preciso pegar autorização, gratuita, no Ibama em Urubici), depois Serra do Rio do Rastro, Praia Grande até finalmente Cambará do Sul e seus cânions Fortaleza e Itaimbezinho, além das inúmeras cachoeiras por todo o caminho. Uns 100 kms de estrada de chão, com cascalho, com pedras pontiagudas, com neblina, teve de tudo. Teve o dia em que fomos de moto até a padaria pois pretendíamos sair pra passear depois na cidade vizinha, Gramado (e seu natal luz) mas o papo tava tão bom que ficamos por ali os três falando de moto, de destinos, até o cansaço bater e a gente voltar os 500 metros de brita pra dentro do camping denovo.

Neblina, Serra do faxinal, a caminho dos cânions
Neblina, Serra do faxinal, a caminho dos cânions
Intruder 125 do Daniel, estilosérrima
Intruder 125 do Daniel, estilosérrima – Morro da Igreja
Contação de histórias
Contação de histórias nos cânions

Comemos muito xis, aprendemos que o melhor remédio pro calor é molhar a camiseta de dry fit, dar uma torcidinha de leve e vestir. Depois de uns dias rodando junto com o Daniel pelas bandas que ele conhece muito bem, de tanta indiada que já viveu por ali de bike e de moto, nos despedimos em Nova Petrópolis (e seus 38 graus), onde a estrada bifurca, era o começo da nossa volta.

Estradinha em Jaquirana, voltando da cachoeira dos Venâncios
Estradinha em Jaquirana, voltando da cachoeira dos Venâncios

Dividimos a volta em mais 2 dias, pernoitando em Caxias do Sul naquela noite, depois em Lages e por fim em Curitiba, onde minha moto decidiu fazer birra e apagar de vez a bateria, possível protesto pelo fim da viagem. O último dia, apesar das cargas na bateria a cada parada (e dos mais de 400 kms que nos aguardavam) foi tranquilo. Passagem pelo litoral de São Paulo e todo aquele montão de gente que desce a serra pra passar a virada do ano na praia. Subida da serra por aquela pista (maldita!) da Imigrantes cheia de ranhuras onde minha moto dança de um lado pro outro.. e no fim da noite estávamos em casa, onde a bateria acabou, a da moto, não a minha.

Tempo fechado e friozinho (na barriga!) na descida da Serra do Rio do Rastro
Tempo fechado e friozinho (na barriga!) na descida da Serra do Rio do Rastro

Foram 9 dias de estrada, de paisagens lindas, histórias e planos. Não dá pra ficar longe da estrada e, por mais que a gente faça uns passeios de fim de semana, é muito bom fugir de tudo e sumir estrada afora por dias, deixando os pensamentos fluirem em paz em cima da moto.

Chegando aos cânions
Chegando aos cânions

Encontrar outros motoqueiros pela estrada também é uma alegria, as buzinadinhas e acenos que demonstram como é bom compartilhar dessa paixão. Teve até um moço de Lages que veio simpático cumprimentar dizendo que comentou com a esposa, na garupa, que quando passou por nós achou que era uma mulher “piloteando” a moto. É, não somos muitas ainda, mas estamos aí :)

Foi uma experiência e tanto pra mim, como piloto, pra aprender cada vez mais e também para conhecer bem a minha moto. Sei agora tudo o que me faz ama-la e o que poderia ser melhor.

Recompensas do caminho
Recompensas do caminho

Para 2014, quero muitas viagens:)E quero uma moto trail pois ontem andei de XT 225 na terra, no cascalho e, bah! Brincadeira de criança! Me vejo daqui uns meses, num domingo de sol, sentada num bar tomando uma Tubaina, moto na porta, com barro até os joelhos e rindo…

A mini-custom não decepcionou, mas uma trail ía bem nessas horas..
A mini-custom não decepcionou, mas uma trail ía bem nessas horas..

Aqui tem uns vídeos da viagem, registros nossos que comprovam a mim mesma que foi tudo verdade, que era tudo lindo mas que tinha cascalho pra caramba, e a gente foi lá, venceu, e como recompensa ganhou paisagens, experiência e lembranças incríveis pra vida:)

PS 1: Valeu Guga, Daniel, não tenho palavras pra descrever a felicidade que é tê-los no meu retrovisor, ou à minha frente, compartilhando essa alegria e as “pedrinhas” do caminho. Grande beijo!

PS 2: Thi, obrigada por me incentivar a melhorar sempre, meu motoqueiro exigente! Pode elogiar de vez em quando que também não faz mal tá!

 

Atualizando, relato desta viagem na Revista Motociclismo Maio/2014

https://miloliv.wordpress.com/2014/05/10/relato-de-viagem-na-revista-motociclismo/

 

 

São Paulo – Rio Grande do Sul – 2.671 kms, 9 dias

“Lembranças, ninguém nos tira”

A frase que define a história toda: “Lembranças, ninguém nos tira.”

E tem toda razão.

O dia das serras, dividido em três partes, porque foi, sem dúvida, um dia maravilhoso que vivemos juntos.

Possível fosse, viveria tudo outra vez. Sem medo de ser feliz.

Os relatos deste dia https://miloliv.wordpress.com/2013/04/13/dia-04-urubici-bom-jardim-da-serra-e-todas-as-serras-195-kms/

“Lembranças, ninguém nos tira”

Dia 06 – Joinville – Curitiba – Cento e tantos quilômetros..

Perdemos o café, mas não a hospitalidade do hostel. A mocinha fez questão de nos arrumar uns iogurtes, bolo e uma maçã pra mim. Maçã que transportei até São Paulo, dentro da galocha, rs.. é.. dentro da galocha..

Toda minha bagagem numa mochilinha. Eu sou uma garupa legal vai:)
Toda minha bagagem numa mochilinha. Eu sou uma garupa legal vai:)

Arrumamos as coisas na moto, paramos pra abastecer num posto de gasolina cheio de moças de shortinho e decotes. Filosofamos um pouco sobre “postos de gasolina que exploram a imagem feminina para atrair clientes” e o Thiago disse como se sente desconfortável com isto, inclusive.

Calmaria de uma manhã de sexta-feira em Joinville.
Calmaria de uma manhã de sexta-feira em Joinville.

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A ideia era ir pra Estrada da Graciosa, mas acho que pelo cansaço acabei convencendo o Thiago a deixar para outro dia, já que ele passaria uns dias em Curitiba para um campeonato de patinação (é, ele domina as 8 rodas também!) Voltamos pelo caminho que fizemos na ida, relembrando onde paramos, revendo paisagens. Eram poucos quilômetros, mas o psicológico começou a pegar.. era a viagem terminando, um certo cansaço acumulado.. Fizemos uma longa parada na estrada onde eu decidi almoçar, depois de tantos dias comendo lanches.. conheci até o “bolovo” uma coxinha, só que recheada de ovo, um ovo cozido, inteiro, dentro, um ovo cozido empanado, quase isso, rs.. muito bom, por sinal! Coisas de Santa Catarina!

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O famoso Camaro Amarelo?
O famoso Camaro Amarelo?

Fizemos os últimos quilômetros já mais animados, com clima de “missão cumprida”, encaramos um mega congestionamento por causa de umas obras na chegada em Curitiba e o Thiago realizou seu grande sonho de acelerar no ouvido de uma motorista que dirigia e falava ao celular, rs..

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Fomos direto pro hostel, no centro da cidade, o mesmo da ida. Foi descermos da moto, mal tiramos os capacetes e desabou uma tempestade. E aí choveu o dia todo. Ficamos de bobeira por lá, salvamos algumas fotos, fomos comer denovo no shopping em frente e comprei minha passagem de volta pra São Paulo.

Depois de tantos quilômetros, um banho de chuva..
Depois de tantos quilômetros, um banho de chuva..

Pretendia ir a pé os 500 metros até a rodoviária, mas o Thiago queria andar de moto, acho que ele estava com vontade, rs.. fomos de moto então, transformei a bagagem de uma semana numa mochilinha pra carregar nas costas, dei minhas últimas recomendações de cuidados com meu capacete ao Thiago, já que talvez ele emprestaria para alguma carona durante o fim de semana (rs..) e fui embarcar. Um abraço forte e um “ótimo viajar com você” completaram aquele clima horrível de despedida e quando o Thiago me deu tchau lá de fora do ônibus tive vontade de desistir e passar mais uns dias por ali só pra voltar com ele, mas… férias acabando.. de volta a realidade.. encarei sozinha as 6 horas de ônibus até São Paulo. E a terra da garoa me recebeu de braços abertos: uma típica garoa paulistana e os “trens circulando com maiores intervalos” me saudaram: sim, eu estava de volta, sã e salva! De volta à cidade cinza, que tanto amo e tento tornar mais colorida..

Foram 1.865 quilômetros de estrada e de história. E cada um deles valeu muito a pena. Uma viagem que ficará para a vida e sempre depois de toda viagem, a gente nunca volta igual..

Obrigada a todos que acompanharam! E, Thi, a gente tem muita estrada pela frente! Valeu por me levar na sua garupa e tornar tudo ainda mais especial. E… “Vai.. não queria viajar de moto? Santa Catarina? Não queria? kkkkk”

Próximo destino?
Próximo destino?

PS1: a maçã voltou na galocha, intacta.
PS2: o capacete foi devidamente devolvido arranhado. Resultado da viagem dentro do baú da moto, junto com o troféu do campeonato que o Thiago ganhou. Tá desculpado, vai;)

Throfebi, Thiago, Beto e Henrique: paulistas arrasando no Campeonato de Curitiba.
Throfebi, Thiago, Beto e Henrique: paulistas arrasando no Campeonato de Curitiba.
Dia 06 – Joinville – Curitiba – Cento e tantos quilômetros..