Mulheres viajantes, dúvidas das motociclistas e algumas dicas

Em minha última noite em Urubici, conheci a Angelika Hofer, uma austríaca que está viajando pela América do Sul há pouco mais de um ano. A Angie chegou na Motogaragem, vindo da Colômbia em uma moto YBR 125 que ela comprou para vir até o Brasil, viagem que para ela seria inviável sem a motocicleta.

 

Angie
A felicidade da Angie: “Chega de chuva, definitivamente pronta para a praia.”

Eu tinha ido me despedir do Glauber e do pessoal de Brasília que havia estado por lá durante o feriado e conversei pouco com ela, mas o suficiente para se tornar um encontro especial para mim. Ela me mostrou a naturalidade de ter uma vida em sua cidade natal, trabalhar e sair para viajar, passar meses fora, depois retornar, trabalhar, seguir uma rotina, viajar de novo e eu ouvi tudo atentamente pois a Angie não sabia, mas ela me mostrava ali um outro universo. Aqui no Brasil, não temos toda essa cultura de explorar o mundo, seja pela realidade econômica ou pela distância geográfica mesmo e as mulheres enfrentam ainda a realidade dos índices de violência contra a mulher, um desafio a mais.

Se na estrada infelizmente vi pouquíssimas mulheres de moto (embora eu tenha muitas amigas que pilotam e viajam, sós ou acompanhadas), nos hostels onde me hospedei encontrei muitas mulheres viajando, a maioria sozinhas (em Colonia Del Sacramento éramos, uma brasileira, uma alemã e uma argentina no mesmo quarto), o que pra mim causa enorme felicidade, pelas experiências que podemos trocar e pela companhia, mas causa ainda um certo estranhamento para muitas pessoas.

Por onde passei, a pergunta que mais ouvi foi: Você está viajando sozinha? E em seguida: de moto? Sempre com muito espanto. – Toda mulher que viaja sozinha está sacudindo a cabeça agora e concordando comigo.

Sobre ser uma mulher viajando sozinha, bem, nada foi diferente dos cuidados habituais do dia a dia de uma mulher que vive numa grande cidade como São Paulo, que é o meu caso. Por estar de moto, me senti mais segura do que em outras viagens que fiz sozinha de avião/ônibus, pela autonomia de deslocamento que a moto representava para mim.

Muitas mulheres tem me procurado pedindo dicas, perguntando se tive problemas e tenho pensado muito no que dizer a elas e acho que a grande dica que posso dar não é de viagem e sim para a vida, algo que funciona para mim: tenha pessoas à sua volta que acreditem em você, que te estimulem a evoluir, mulheres ou homens, cerque-se dessas pessoas, aprenda e inspire-se nelas. E, nunca dispense um exemplo feminino. Encontre as mulheres que fazem o que você tem vontade de fazer, troque ideias, marque um café, enfim, perceba que você também pode. Elas estão fazendo! E se você não encontrar uma mulher fazendo o que você quer fazer, por favor, seja a pioneira! Abra caminho para as que virão!

Quando se fala do universo motociclismo, há uma predominância de homens, e é fácil distinguir quem te admira por ser uma mulher motociclista e quem tem até um discurso de admiração, mas não colabora em nada para que nosso dia a dia, dentro dos grupos de debate, eventos ou viagens seja mais prazeroso e ainda reclama que tem poucas mulheres!

Eu participo de diversos grupos sobre motos nas redes sociais, modero alguns, e encontro de tudo neste universo. Faço amizades belíssimas dentro destes ambientes, procuro responder dúvidas sempre que possível, também aprendo bastante, mas ainda vejo muita postagem de foto sexualizada de mulher, muita piadinha machista que, já em 2017, não sei quem ri, e isso é o tipo de coisa que afasta as mulheres do motociclismo. Não, não é porque mulher tem medo ou não gosta de moto, algumas gostam, outras não, mas o que não gostamos mesmo é de ficar aturando babaquice, preferimos investir nosso tempo com nossas amigas e amigos que nos fazem evoluir e que são companhias agradáveis.

Percebo ainda que alguns homens se incomodam quando respondo uma dúvida de mecânica, deixo um exemplo abaixo. Para estes, só o que tenho a dizer é: vai ter mulher de moto sim e se reclamar, vamos levar mais uma na garupa.

grupo
Um pouco de humor na resposta, mas o assunto é sério.

Recebo muitos parabéns pela viagem e etc, adoro este carinho das pessoas mas queria deixar claro que não sou nenhuma heroína, sou uma mulher comum, buscando fazer o que gosta. E se eu consigo, você também consegue. Tenho minhas dificuldades (uma moto é alta, a outra é pesada), desafios a superar mas também tenho uma felicidade imensa de estar cercada de pessoas que me fazem evoluir, não tenho vergonha de pedir ajuda, procuro sempre estar aberta às opiniões e experiências e respeito meus limites. E, novamente, nunca dispenso um exemplo feminino.

Uma vez ouvi da Rosana Lourdes, uma motociclista experiente e que tenho como inspiração desde sempre: “você limita os teus limites”. A frase da Rosana nunca mais me saiu da cabeça. Sigo respeitando meus limites, porém, sempre tentando identificar o que é realmente limitação e o que é apenas limite psicológico que pode ser trabalhado.

Como motociclista, fiz dois cursos de pilotagem com foco em off road, um deles junto com um grupo de mulheres que conheci através do  Triumph Classic Lady Riders (que nada tem de exclusivo ou ligado a Triumph, apenas a paixão das criadoras do grupo pelas motos clássicas da marca, temos uma miscelânea maravilhosa de estilos e marcas de moto, se você é mulher motociclista, junte-se a nós) e nestes cursos adquiri habilidades essenciais para uma viagem como a que acabo de fazer, com uma moto naked e pesada, encarando algumas estradas de terra. Treinar é importantíssimo então, mulheres, vale a pena ficar de olho e acompanhar os próximos cursos e treinos que estamos planejando.

13987482_10202165977627641_1646031462649434533_o
Do dia em que juntamos um monte de motos naked e street pra subir e descer barranco, fazer slalom, tudo off road
13926007_10202165978867672_6098274335315189167_o
Algumas das Classic Lady Riders: amigas de estrada e de vida, grandes inspirações pra mim

Uma pergunta interessante que ouvi no Chuí de um rapaz logo depois que soube que estava vindo de São Paulo de moto sozinha e seguiria para o Uruguai: “você entende de mecânica?” – Posso não saber consertar mas sei identificar se houver um problema, respondi sorrindo. Tirando o fato de que um homem sozinho de moto dificilmente ouviria esta pergunta, achei uma consideração muito válida.

Sobre mecânica, me interesso em aprender e estou sempre atenta a isso, sei fazer algumas coisas, trocar óleo, filtro, pastilhas de freio, mas é preciso entender que, mesmo que você não saiba fazer tudo sozinha, é importante conhecer como as coisas funcionam e principalmente, conhecer a tua moto. E aqui falo para homens e mulheres pois temos um estranho hábito de deduzir que se é homem entende de mecânica, um mito. Muitos homens não entendem nada do funcionamento de suas motos e, na minha humilde opinião, seria importantíssimo saber ao menos o básico.

Nessa viagem estive sempre atenta ao nível do óleo, às condições dos pneus e condições gerais da moto, é dar uma volta mesmo ao redor da moto observando-a, isto pode evitar possíveis problemas. Há algum parafuso frouxo? Os cabos estão em ordem? Como estão os freios? Estes hábitos simples te fazem ter tanta afinidade com a máquina que qualquer som ou trepidação/comportamento diferente você irá sentir. Conhecer a autonomia de combustível, entender que a velocidade, condições climáticas e qualidade da gasolina podem interferir no consumo e se precaver quanto a isso também é importante, ou seja, não deixe para abastecer no limite. Saiba lubrificar a corrente e checar o estado da relação (se a tua moto não tem cardã), negligenciar isso pode danificar prematuramente toda a relação. E mesmo que você não tenha à mão o Motul que você ama, compre graxa, tem em todo lugar e é muito melhor que uma corrente seca. Saiba identificar se a corrente precisa ser esticada. São coisas simples, ninguém precisa ter cursado engenharia ou possuir super poderes para aprender. Precisamos desmistificar um pouco isso, tentarei fazer alguns vídeos e compartilhar o que tenho aprendido.

Na minha viagem não tive nenhum problema mecânico, a única coisa que precisei fazer foi apertar um parafuso da pedaleira, pois notei, num trecho de menor velocidade, uma certa trepidação logo abaixo do meu pé direito. A afinidade com a moto faz você perceber de onde pode vir o problema. Uma chave 12 resolveu. Não, eu não tinha uma chave 12 na minha bagagem, mas tive a sorte de ter parado bem em frente à uma loja de ferragens, mas mesmo sem essa ajuda do universo, uma chave de boca não é algo difícil de se conseguir. E quando você sabe a origem e do que precisa, fica mais fácil resolver o problema.

chave
Uma única chave necessária na viagem. Moto boa é a tua e bem cuidada.

Já quase em São Paulo, na inspeção de rotina, a voltinha em torno da moto, notei um parafuso bem frouxo, quase solto, que eu não sabia o que era. O Thiago me explicou que era o parafuso do coletor de admissão, que prende o coletor ao cabeçote. Desta vez, uma chave 8. Neste caso nem precisava saber o que era, bastava apertar o parafuso, mas aprender é importante.

Sobre rotas, mapas, eu traço as rotas no Google Maps do celular mesmo e vejo quais as opções, se há muitas rodovias, pergunto para alguém que sei que conhece melhor a região, ou faço uma pequena pesquisa sobre. Nem sempre o caminho mais curto é o melhor ou o mais agradável. Aprendi isso como ciclista e continua sendo uma verdade no motociclismo. Também é importante ver quais cidades estão no teu caminho. Tem capitais? Só cidades pequenas? Memorizo alguns nomes, nem sempre as placas indicam o teu destino, mas indicam a direção a seguir para chegar lá. Talvez você precise parar mais cedo do que o previsto por um problema mecânico ou só cansaço mesmo, tenha em mente as opções para isso.

Falando em cansaço, respeite o seu. Respeite seu corpo, sua mente, não exite em parar caso esteja com sono, fome, sede, muito calor, frio, enfim. Insistir com este tipo de desconforto te coloca em risco, porque diminui tua atenção e reflexos na pilotagem. E entenda que há dias/estradas/condições climáticas que rendem mais e que rendem menos, permita-se mudar o planejamento.

Sobre hospedagem, eu só reservo quando estou perto de parar, checo as opções no booking e sigo para lá, às vezes descubro opções boas a poucos metros de mim. Às vezes pergunto no posto de gasolina, consegui dicas boas assim.

E o mito de que mulher leva muita bagagem. Creio que bagagem tem muito mais a ver com a tua personalidade, estilo de vida do que com gênero. A vida mochileira me ensinou a levar somente o essencial, um aprendizado fácil quando você está carregando o peso nas costas. Na moto geralmente o espaço é pouco. Nesta viagem levei menos do que levaria se tivesse planejado sair de casa para viajar por 30 dias, mas me virei muito bem. Quando cansei de usar aquelas mesmas camisetas que obviamente fui lavando no caminho, comprei uma de viagem, já volta pra casa como um souvenir.  Carregar pouca coisa me deu uma sensação de liberdade muito grande. Às vezes precisava parar a moto carregada em algum lugar e ficava tranquila por não ter tanta coisa ou coisas muito valiosas em risco. (Minhas roupas, toalha, eram valiosíssimas pra mim,  ali, em viagem, mas não tinha eletrônicos e etc para chamar atenção ou correr risco de ter um prejuízo material)

E como você aprendeu sobre a mecânica da tua moto, monte um pequeno kit de ferramentas e leve-o. As chaves mais utilizadas, reparo rápido de pneu, lubrificante de corrente, abraçadeiras, mas também não queira carregar uma oficina com você. Mantenha tua moto sempre em ordem e precisará se precaver apenas para pequenos imprevistos.

Acho que essas são as dicas básicas, aprenda tudo que puder, ouça bastante, faça um filtro (desconfie de quem acha que sabe tudo), e cerque-se daqueles que te ajudam a evoluir e ficam felizes com o teu sucesso. No motociclismo e na vida né?

Fiquem a vontade para perguntar, o que eu souber responderei e o que eu não souber descobriremos juntos.

E queria deixar aqui mais uma referência feminina, cuja viagem me inspirou a ir além, a Rebeca Bonel, que pegou sua Biz 125 e rodou 8.000 quilômetros pela América do Sul. Simples assim.

Representatividade importa.

17240699_10208611612387352_5065476339284666464_o
Serra do Corvo Branco. 10 km de cascalho e pedras soltas com uma moto clássica. O maior desafio que já encarei com a bonneville. Eu fiz, você também faz.
Mulheres viajantes, dúvidas das motociclistas e algumas dicas

Florianópolis – Urubici (e a vontade de viver no interior)

 

P_20170220_062920
Pausa no mirante para contemplar o amanhecer na ilha

Saí bem cedo de Florianópolis para evitar o trânsito mais pesado e segui rumo a BR-282, uma estrada belíssima que dá acesso a Serra do Panelão, caminho para Urubici.

Parei para tomar um café e um senhor me recebeu dizendo “obrigado pelo gentileza!” – explicou que eu havia cedido passagem para ele na estrada, há pouco. Tive então companhia e prosa durante o café.

P_20170220_101135

Chegar a Urubici foi especial. É bom conhecer lugares novos mas também é muito bom voltar aos lugares que te trazem boas lembranças e isso é uma coisa que me encanta em viajar de moto, a facilidade de retornar.

Reencontrei o Glauber e pude ouvir e me inspirar com suas histórias de viagem e da vida.

O feriado de carnaval se aproximava e o Thiago, ficou animado em ir até Urubici me encontrar e passear pelas serras, já a mãe dele, Fátima Santos, a cicloturista que já subiu a Serra do Rio do Rastro pedalando, ficou ainda mais animada em ir de garupa com ele também. Pronto, estava feito o plano da semana. Decidi então ficar por ali, explorando as serras e aguardando os paulistanos.

O clima da serra me encantou. Fazia muito calor durante o dia, então procurávamos sair de manhã ou mais para o fim do dia, quando as temperaturas caíam bem. Vivi dias de interior e descobri um caminho para a paz. A tranquilidade do trânsito, das pessoas, o comércio local, as verduras fresquinhas, o suco natural, as aves, o silêncio, tudo tão simples e perfeito.

O Glauber me mostrou o Morro do Campestre que eu ainda não conhecia, uns 15 km de estrada de chão boa até chegar numa trilha que sobe até o alto do morro, com uma vista belíssima.

 

16819164_10154991282351354_2694906558642626078_o (1)
Moto clássica faz off road sim!

 

P_20170221_084350_PN
Trilha de 30 minutos caminhando tranquilamente e contemplando o lugar
16804357_10154991282831354_3783902144948230925_o (1)
No alto do Morro do Campestre

Foi ele também quem me acompanhou até a Serra do Corvo Branco, onde encarei meu maior desafio com a bonneville,  10 km de cascalho e pedras soltas, um esforço totalmente recompensado pela beleza do lugar. Mesmo já tendo estado ali, me surpreendi com a altura daqueles paredões de pedra e o som que ecoa pelas fendas das rochas. Nenhuma foto ou vídeo é capaz de refletir tamanha imensidão. É ir e ver.

17240699_10208611612387352_5065476339284666464_o
A felicidade de superar limites. Registro do Glauber Leite daquele momento tão especial para mim.

 

Nos demais dias fui até o Morro da Igreja, com sorte de um tempo extremamente aberto e, claro, até a Serra do Rio do Rastro. As estradas de Urubici até estes dois pontos também são incrivelmente belas, cenários perfeitos para muitas reflexões sobre a vida que me foram surgindo.

P_20170221_154025
Estrada do Morro da Igreja e a belíssima vegetação da região

 

P_20170221_160325_PN

P_20170221_160225_BF
Tempo tão aberto a 1.822m de altitude que permite uma selfie com a Pedra Furada ao fundo, é muita, muita sorte. E eu sou uma garota de sorte.

No mirante do Rio do Rastro conversei com um viajante carioca que, segundo ele, não era motociclista, estava motociclista. Retornava de uma viagem de 14.000 km pela América do Sul e me contava com uma serenidade cativante em sua fala. Ao fim me perguntou quando eu voltaria a São Paulo ao que respondi com a maior sinceridade e um sorriso no rosto: eu não sei.

P_20170222_103506
Mirante da Serra do Rio do Rastro

Ouvir as histórias de viagem das pessoas que encontrava no caminho me fazia querer ir cada vez mais longe, era a energia que eu precisava.  Em algum momento que não sei precisar decidi que iria até o Uruguai. Talvez Argentina. Por que não Atacama? Bem, já estávamos falando em cruzar o deserto, existiam algumas limitações, mas naquele momento elas pouco importavam, eu já estava na estrada e tudo que eu queria era aproveitar a oportunidade ao máximo. Ouvimos que o maior desafio é dar o primeiro passo e é a mais pura verdade.

 

Comprei um caderninho para anotar os lugares imperdíveis e as dicas do Glauber e fui deixando que os pensamentos fluíssem livremente. Sim, eu iria até o Uruguai. Com a liberdade de virar e voltar quando sentisse vontade. Ou avançar um pouco mais, quem sabe. O importante naquele momento eram as possibilidades abertas. Provei a liberdade. E gostei.

Passar o feriado com o Thiago e a mãe dele foi muito gostoso, apesar de corrido para eles que tinham data para voltar a São Paulo. E se eu tinha alguma dúvida em seguir ou não viajando, os dois estavam ali pra dizer: vá! Thiago se prontificou a cuidar dos meus gatos em casa e me incentivou assim como sempre incentiva na vida.

P_20170228_105331
Gratidão pelas pessoas incríveis em minha vida

Desci a Serra do Rio do Rastro com eles e lá embaixo nos despedimos. O coração apertou sim, mas por vê-los partir e não por querer voltar. Subi aquela serra magnífica e peguei a estrada até Urubici, na manhã seguinte seguiria para o Rio Grande do Sul.

 

Florianópolis – Urubici (e a vontade de viver no interior)

Morretes – Florianópolis

A Estrada da Graciosa é uma estradinha encantadora, de paralelepípedos e repleta de hortênsias, muito floridas em algumas épocas do ano.

P_20170217_140739
Início da Graciosa, ainda asfalto. 415 km até ali, nem imaginando quantos mais viriam

Dali cheguei a Morretes, cidadezinha tranquila, interiorana, com muito calor. A cidade é cortada pelos trilhos do trem, um tanto curioso para quem é de fora como eu e precisa aguardar a passagem do trem para atravessar.

P_20170217_183213

Ao lado da minha moto no hostel, uma Ténéré 250, toda equipada e extremamente bem cuidada. Na manhã seguinte conheci o dono da Té, o Júnior, de Ibiúna-SP, conversamos um pouco, ele ofereceu um produto para lubrificar a corrente da minha moto e eu fiquei extremamente agradecida pois havia procurado bisnagas de graxa nos postos do caminho, mas vendiam apenas embalagens muito grandes. Proseamos bastante sobre motos, viagens, ele também seguiria para Florianópolis e então decidimos pegar estrada juntos.

Na noite anterior eu já havia perguntado ao Daniel (o amigo gaúcho) qual caminho ele me sugeria para seguir a Floripa e ele, com toda experiência de cicloturista e motoviajante me passou uma série de opções. Acabei escolhendo seguir pela balsa de Guaratuba, que me parecia uma travessia interessante e um caminho mais simples, já que eu iria guiando mais uma pessoa. Me perder, ok. Me perder levando mais um, preferi evitar.

P_20170218_090203
Amizade que nasce na estrada e segue pra vida!

 

A estrada foi muito tranquila, chegamos no meio da tarde em Florianópolis, levei o Júnior para conhecer o Mirante da Lagoa da Conceição e nos hospedamos de frente para a lagoa.

P_20170218_165119
Mirante da Lagoa da Conceição

Neste meio tempo, soube que um amigo e motoviajante querido, o Glauber Leite, tinha se mudado para Urubici. Urubici! Não fosse o bastante estar no ponto de partida para as Serras do Rio do Rastro, do Corvo Branco, Morro da Igreja, ele ainda estava gerenciando uma pousada exclusiva para motociclistas! (leia a colaboração que fiz para a revista Motociclismo sobre a pousada aqui)

Decidi que iria até lá. Combinei com ele minha estadia e pronto. Era pegar a belíssima BR 282 e chegar às serras catarinenses. Já estive na região duas vezes antes, na garupa da XT do Thiago Santos, em nossa primeira viagem longa de moto, e depois pilotando minha primeira moto, uma Intruder 250, na companhia também do Daniel, 4 anos atrás. Mas serra catarinense nunca é demais e cada época do ano guarda seus encantos.

Também decidi ficar um dia a mais em Florianópolis para curtir a ilha, me despedi do Júnior que seguiria viagem no dia seguinte, com a certeza de ter feito mais um amigo na estrada (e na vida).

P_20170219_172303

 

P_20170219_180036_PN
Dunas da Joaquina
P_20170220_060315
Lagoa da Conceição
Morretes – Florianópolis

São Paulo – Morretes ou: como eu fui parar no Uruguai

2017, 16 de fevereiro, quinta-feira a noite.

Aguardava ansiosamente o resultado de um processo seletivo de trabalho, daqueles com 88 etapas que alimentam nossa ansiedade cada vez que contamos toda nossa trajetória profissional para uma nova pessoa. Eu não queria passar a sexta-feira envolta em ansiedade. Decidi que faria um passeio de moto. Estrada da Graciosa, perto de Curitiba, uma cidade na qual já estive algumas vezes mas geralmente com pouco tempo, era a hora de descer a estrada histórica até Morretes, talvez eu seguisse até Paranaguá.

Enquanto arrumava minha pequena bagagem, duas camisetas, um biquini (porque aprendi com uma amiga, a Rosa Freitag, que sempre pode haver uma cachoeira no caminho e você PRECISA aproveitar para se refrescar), mais uma calça (vai que chove e você se molha…),  enquanto separava essas coisinhas para sair cedo no dia seguinte, recebi a devolutiva negativa da empresa. Um pouco de decepção, mas me pareceu também um bom sinal um e-mail já depois da meia-noite, indicando que as pessoas ali abrem mão de muitas coisas para trabalhar, como dormir, ou organizar suas coisas de viagem na madrugada.

P_20170217_090043
Café da manhã em Peruibe – Dica: sempre que desço para a BR116 sentido Curitiba, passo primeiro pelo litoral paulista via BR101, evitando assim a complicada serra do cafezal

E o plano era esse, descer a Graciosa, dormir em Morretes, talvez Curitiba, talvez Paranaguá. Mas quando se pega a estrada, há coisas que fogem ao nosso controle, como a vontade de ir mais longe, as reflexões sobre a vida, sobre como usamos nosso tempo e fui percebendo que ali, na estrada, em cima da minha moto, com duas camisetas e uma escova de dentes na bagagem, eu tinha um mundo de possibilidades.

P_20170217_105440
Tudo parece muito perto. E é.

E foi assim que começou a viagem que durou pouco mais de um mês, e me levou de São Paulo até Colonia Del Sacramento no Uruguai, costeando o litoral deste país incrível, tão próximo e tão desconhecido até então para mim.

Durante toda a viagem, meus roteiros e destinos foram sendo definidos um dia por vez, baseados no que pensava na estrada, nas conversas que tinha com quem encontrava no caminho, ou com as pessoas que tive a felicidade de rever logo à frente. Eu não tinha pressa e queria experimentar essa nova forma de viajar, sem um planejamento prévio e respeitando minhas vontades que mudavam o tempo todo diante de tantas possibilidades. Obviamente eu tinha um limite de gastos, mas tinha tempo, e descobri quão valioso nosso tempo pode e deve ser.

 

 

P_20170217_140326
Portal da Estrada da Graciosa – aqui eu já sentia que queria ir mais longe, por que não então?

Cidades em que fiquei:

São Paulo
Morretes – meu destino inicial, onde conheci o Júnior que foi comigo até Floripa
Florianópolis – 1 dia a mais e com uma hora a mais devido ao fim do horário de verão
Urubici – 8 dias… uma vida é pouco nas serras catarinenses
Canela – porque havia muitas serras no caminho até Nova Petrópolis
Porto Alegre – 2 dias, na companhia do amigo gaúcho Daniel Chagas
Chuí – hora de me preparar para a entrada no Uruguai
La Paloma – decidi ficar 1 dia a mais assim que cheguei, ficaria uma vida também
Piriápolis – 1 dia a mais por causa do vendaval em Montevideo, meu destino seguinte
Montevideo – que capital!
Colonia del Sacramento – 1 dia a mais, no limite da carta verde, pela paz do lugar
Santa Vitória do Palmar – porque não achei a cabana do Chuí onde me hospedei na ida
Pelotas – no melhor hostel em que já me hospedei
Palhoça – fim de um dia que rendeu mais do que eu esperava
Peruibe – casa dos meus pais, refúgio antes de voltar para a selva de pedra
São Paulo – em seu primeiro dia de outono

Foram 6.200 km de descobertas. Aos poucos colocarei minhas lembranças desta linda jornada aqui.

Mais fotos em: https://www.instagram.com/miloliv/ e em breve por aqui também.

 

São Paulo – Morretes ou: como eu fui parar no Uruguai

Mototerapia

Domingo, acordar cedo, pegar a moto e seguir pra estrada. Destino: Joanópolis-SP.
Curvas, curvas e curvas. Uma mais deliciosa que a outra. Pensar em nada, focar na arte de contornar cada uma delas de forma segura e prazerosa. Isso é mototerapia!

A Cachoeira dos Pretos é tão magnífica que parece um prêmio pra quem chega até ali, mas não, o prêmio é o caminho percorrido mesmo, cada curva, cada momento que mesmo sem registro em imagens, jamais sairá da memória.

Sentimentos meio parecidos com os que esse videozinho me desperta, essa musiquinha que não sai da cabeça, a cada curvinha contornada… Vontade de celebrar a vida! Curtir a jornada e não só o destino… afinal, onde será que esse caminho vai dar? Só indo lá pra saber…

Vídeo encontrado neste blog bacaninha aqui, o Motor do Mundo.

Mototerapia