De SP a Chapada dos Veadeiros-GO – Dia 02, Uberlândia-Brasília 420 km

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Bom dia Uberlândia!

“Dizia ele: estou indo pra Brasília, neste país lugar melhor não há.”

Brasília me lembra Legião Urbana, Paralamas do Sucesso.. passei boa parte da viagem cantarolando “Faroeste Cabloco” e “300 picaretas”, não tive como evitar.

Saímos não tão cedo neste segundo dia, depois de tomar nosso café de mercado no quarto. Tempo bom, sem previsão de chuva e estrada continuava boa e vazia. Diversos trechos apenas com o Thiago a minha frente e ninguém atrás.. Pensei em como eu adoro pilotar e como me frustra estar presa em São Paulo com vontade de pegar uma estrada vazia mas encontro aquele monte de carros, carros, carros… Sorri e me senti grata por aqueles momentos de paz.

Com a tranquilidade começou a vir uma certa tensão: cadê posto de combustível? Num determinado momento vi um posto de atendimento ao usuário da MGO-Rodovias e decidi parar, próximo posto estava a 15 km e depois só em Cristalina, a 70 km dalí, mas se precisássemos eles nos ajudariam a arrumar combustível. Foi bom saber, mas dava pra rodar bastante ainda. Aproveitamos pra descansar um pouco, pra comentar dos gaviões que vez ou outra passavam por nós, da ave que quase colidiu em mim de frente (eu até desviei um pouco a cabeça, foi um sustinho).

Abastecemos um pouco ali perto e depois completamos o tanque em Cristalina onde a frentista disse que logo estaríamos em Brasília, mas alertou que à frente a estrada estava em obras, para tomarmos cuidado, batemos um papinho ali.

É sempre muito gostosa essa interação que a moto permite, sempre vem alguém conversar conosco, quando notam a placa de SP rola ainda uma admiração, talvez essas pessoas nem saibam mas um aviso como esse da moça do posto, um sorriso, faz toda a diferença.

E ela tinha razão. Dali pra frente vários trechos em obras, alguns desvios na pista, daqueles de parar, desligar a moto e esperar.

Já que tem que esperar, aproveitamos pra descansar
Descansando atrás do carro vermelho do motorista apressadinho, vai ter que esperar, baby

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Tirando os trechos em obras a estrada continuava boa até faltarem uns 50 km para Brasília quando tudo mudou. Foi começando trânsito carregado, buracos enormes, lombadas eletrônicas de 40 km/h e muitos pedestres atravessando a pista. Notei que não havia nenhuma passarela, que os acostamentos eram de terra, mato.. um pedaço esquecido, pessoas esquecidas arriscando a vida para cruzar de um lado para o outro da via. Trecho bem tenso que parecia eterno.. Cruzamos a divisa dos estados sem ânimo algum para registros, estava escurecendo e, como eu disse antes, pilotar a noite me deixa tensa.

Enfim chegamos em Brasília, e suas vias de trânsito rápido e motoristas insanos.. não, eu não vou generalizar, nunca se pode, mas no tempo que circulei por Brasília tive que ligar o modo de pilotagem “agressivo-defensivo”: colar na traseira do Thiago, o que significa não manter aquela distância de segurança porque ela só está servindo pros motoristas acharem que tem espaço pra entrar no meio da sua moto.. e o tempo todo com os pés “em cima” do freio, não consegui descansar os pés na pedaleira em nenhum momento… além da buzina.. se eu não tinha precisado usar a buzina até então nos mil quilômetros que rodamos, ali não conseguia andar sem usa-la…

Basicamente, quando você chega no Eixão (e, vejam, eu vinha da rodovia) está todo mundo correndo, como numa fuga sabe-se lá do quê, e para parar num posto, que era o que eu sonhava em fazer pra ver onde iríamos dormir (e respirar um pouco) você tem que fazer um retorno e, só pra constar, nos entroncamentos desses retornos, as pessoas entram como loucas, elas não olham se vem alguém, elas jogam o carro pro lado e pronto (entrando na segunda faixa como quem entra na direita livre).  Via totalmente planejada para priorizar velocidade ou seja, um grande erro.

Não tem semáforo, não tem faixa de pedestre, só carro, carro e carro.

Mais tarde no hotel li sobre o planejamento viário de Brasília e o texto falava das ruas residenciais que são sem saída pois assim evita fluxo grande de veículos e velocidade.. tá.. mas de nada adianta se até chegar lá você é quase morto a cada quilômetro.. passamos por 1 ciclista (um!) e eu fiquei imaginando como deve ser horrível ser ciclista ali. Aí pensei em São Paulo, nas marginais Tietê e Pinheiros e, bem, não é muito diferente, exceto que em SP os motoristas aprenderam a respeitar os motociclistas e dá até pra andar no corredor numa boa, em Brasília eu não ousava mudar de faixa.. e, Brasília foi pla-ne-ja-da não foi? Pois é.. não para pessoas.

Por fim fizemos um retorno e paramos num posto, brigamos um pouco com o 3G do celular e escolhemos um hotel pelo Booking que fosse o mais próximo de onde estávamos, eu não queria pilotar nenhum quilômetro desnecessário ali. Até descobrirmos onde estávamos levou um tempo (era perto do Lago Norte), reservamos e seguimos. Nunca um lugar foi tão difícil de se localizar..

Quando nada der certo, lembre-se dos caminhos lindos que percorreu até ali...
Quando nada der certo, lembre-se dos caminhos lindos que percorreu até ali…

Oi, meu nome é Camila e eu derrubo a moto na porta do hotel

Claro que demos uma erradinha no caminho e demos de cara com o fim da rua. Thiago fez o retorno e apontou que era ali atrás (era um flat, a entrada parecia residencial mas o endereço batia).

Fui mais à frente para ter mais espaço para fazer o retorno mas não adiantou.. sabe-se lá por quais forças da insegurança do universo eu, no meio da curva, fui querer colocar o pé no chão, aí meu amigo.. a moto ficou pesada e eu “tive que deita-la”.. Deixei a moto cair, praticamente parada.. e tinha um espaço enorme pra fazer a curva ainda..

Bom, passada aquela raiva inicial, fiquei esperando o Thiago perceber que eu estava demorando muito, até que ele voltou pra trás e viu a moto caída e perguntou o que tinha acontecido. Burrice, baby, burrice.  Erguemos a moto (junto com os caquinhos da minha dignidade). Felizmente o maravilhoso protetor de motor impediu que acontecesse qualquer dano a moto, nem a poeira tirou! E eu só ando de luva então a mão que apoiei no chão nada sofreu também.

Bom, apesar de mil quilômetros longe de casa, pelo menos eu escolho uma capital pra derrubar a moto né gente? Se precisasse de peças seria mais fácil.. mas falando sério, não façam isso em casa (e nem na rua!) E instalem protetor de motor, um vacilo desse poderia ter sido um belo prejuízo.

Era noite, estávamos com fome, cansados e eu tinha derrubado a moto. Eu não queria mais sair do hotel pra nada naquele dia. Decidimos pedir uma pizza e, como bons paulistanos que somos, poderíamos comer pizza fria de café da manhã. Ficamos mais um tempão tentando entender onde estávamos hospedados e se as pizzarias online entregariam lá. Por fim escolhemos uma, a pizza estava ótima, mas era muito pequena e não sobrou :(

Troquei algumas mensagens hilárias com dois amigos que moram em Brasília sobre as siglas que nem eles sabem o que significam (beijo Larissa e Roberto), peguei algumas dicas de passeios para o dia seguinte e terminei o dia assistindo X-Men.

No fim, deu tudo certo.

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De SP a Chapada dos Veadeiros-GO – Dia 02, Uberlândia-Brasília 420 km

De SP a Chapada dos Veadeiros-GO – Dia 01, SP-Uberlândia 600 km

No planejamento da viagem, dividimos o trajeto de aproximadamente 1250 km em 3 dias, deixando meio dia livre em Brasília (e portanto menos quilometragem neste dia) para conhecer a cidade:

Planejamento inicial:

  • SP-Uberaba – 480 km
  • Uberaba-Brasília – 520 km
  • Brasília-Chapada dos Veadeiros – 250 km

Saímos no domingo cedinho (em algum momento da vida motociclística chegamos a conclusão de que domingo cedo é o melhor momento para começar a viagem), pegamos a Rodovia dos Bandeirantes e depois a Anhanguera. Estava um dia bonito, temperatura agradável, estrada boa e tranquila. A viagem correu tão bem que por volta das 14h já estávamos pertinho de Uberaba e ainda bem animados, então durante a parada para abastecimento e descanso, decidimos seguir até Uberlândia (+ uns 100 km) naquele mesmo dia, já que nunca se sabe como será a estrada ou o clima mais para frente, decidimos aproveitar.

Primeira parada em Limeira
Primeira parada em Limeira

Embora eu adore planejamentos e reservas com antecedência, aprendi que nem sempre é o melhor jeito e passamos a evitar reservas de hospedagem. Para esta viagem, apenas a pousada na Chapada dos Veadeiros ficou reservada, por tratar-se de local turístico e termos bastante flexibilidade de tempo para chegar até lá (3 dias). Na viagem que fizemos para o Espírito Santo, tínhamos reservado um hotel em uma cidade do caminho mas como minha moto quebrou e acabei indo de garupa, o tempo de decidir o que fazer + aguardar guincho + a chuva torrencial que pegamos + a estrada ruim, ou seja, tudo isso, acabou atrasando nossa viagem e perdemos a reserva já paga :( A partir de então evitamos ao máximo. Passamos a olhar os arredores de onde pretendemos pernoitar e a estrutura de hoteis através do Booking e quando já estamos a poucos quilômetros do lugar é que fazemos a reserva pelo celular. Se não tem internet onde paramos, seguimos direto até o hotel. Damos preferência para: proximidade da estrada, estacionamento gratuito, se possível coberto (pagar para duas motos não é legal, sem contar que às vezes o estacionamento é terceirizado, do outro lado da rua…), internet (pra checar mapas) e, claro, lemos as avaliações pra saber como é o mais importante pra nós: o chuveiro. É, um bom banho quente pra quem rodou centenas de quilômetros no dia faz toda a diferença. Costumávamos nos hospedar mais em pousadas simples, mas acabamos tendo sempre problemas com o chuveiro então, sempre que estamos em cidades maiores e o orçamento da viagem permite, acabamos buscando redes como o Ibis (que tem um chuveiro maravilhoso, praticamente uma massagem) ou Nacional Inn que tem preços bem honestos (que muitas vezes empata com as pousadas) e um conforto básico que pode fazer a diferença nos dias seguintes. (e mesmo sendo a duplinha mais azarada com chuveiros, se algo der errado, eles terão outros quartos pra nos oferecer)

Nos hospedamos então no Ibis Uberlândia, em frente a um shopping e supermercado Carrefour. O Ibis oferece um café da manhã pago mas como eu não gosto muito das opções deles (acho tudo muito industrializado, diferença de um café de pousada… é, não se pode ter tudo..)  acabamos comprando umas coisinhas no mercado mesmo. Como chegamos cedo ainda assistimos um filminho e pudemos descansar bem.

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Parada em Orlândia

Eu não gosto de pilotar a noite, minha visão fica muito prejudicada o que me deixa insegura e, consequentemente muito mais cansada. Sem contar das diversas desvantagens de se estar num veículo de duas rodas a noite como não enxergar buracos, obstáculos, óleo na pista. Além do risco de animais, principalmente em regiões mais afastadas dos grandes centros, e de algum problema mecânico. Enfim, se precisar a gente vai, mas meu objetivo é sempre chegar antes do anoitecer. Como isso aconteceu no primeiro dia, me deixou ainda mais feliz.

Tudo tranquilo com as motos. Médias de consumo e autonomia de combustível bem parecidas, Thiago reclamando que às vezes fico muito longe, tudo dentro do normal.

Comigo, só o já esperado banco desconfortável. Cheguei com muita dor nas costas, mas nada que a água quente do banho não tenha curado, no dia seguinte estava ótima. (mas vamos trocar esse banco assim que possível!)

Estrada ótima até lá Uberlândia, mas entrando em MG começam os pedágios (em SP motos não pagam pedágio). Mas quando a estrada é boa, sinceramente, nem reclamo.

De SP a Chapada dos Veadeiros-GO – Dia 01, SP-Uberlândia 600 km

Moto nova e viagem

Triumph Bonneville T100
Triumph Bonneville T100 (a moto que não é custom)

A primeira vez que subi numa Triumph Bonneville foi no Salão Duas Rodas de 2013 e me apaixonei pela posição de pilotagem. Tempos depois fiz um test ride na Triple Triumph em São Paulo e ainda aluguei uma para dar um passeio mais longo. Não restava dúvidas, era ela!

Em dezembro decidi comprar minha moto dos sonhos. A Sahara tinha me deixado na mão (ou melhor, na garupa) na viagem pro Espírito Santo, surgiu um preço legal então decidi que era a hora! Fui buscar a minha tão sonhada Bonneville em Belo Horizonte, a 600 km de São Paulo, simplesmente porque, se estamos falando de realizar sonho tem que ser completo né, a cor que eu queria naquela condição de compra só estava disponível lá.

De BH para o mundo \o/
De BH para o mundo \o/

Li tudo que existia na internet sobre amaciamento de motor e embarquei denovo na garupa do Thiago pra buscar minha moto. O pessoal da Triumph BH foi sensacional, extremamente atenciosos, transformaram aquele momento em algo ainda mais especial. Forte abraço ao Luisão e a todos da concessionária que fizeram questão de ir conhecer pessoalmente a moça de SP que tinha ido buscar a Bonneville :) Como mulher motociclista, também não posso deixar de comentar o tratamento de igual pra igual que recebi de todos (e não aquele direcionado ao homem que está com você como acontece muitas vezes quando estou acompanhada), a Triumph BH está realmente de parabéns.

Depois da volta pra casa, fiz mais algumas pequenas viagens, litoral e interior de SP e, finalmente as férias chegaram permitindo ir mais longe.

Domingo seguimos Thiago e eu para Goiás, rumo a Chapada dos Veadeiros. Vai ser a primeira chapada do Brasil que vou conhecer, sonho antigo também, por isso estou muito, muito animada!

São aproximadamente 1.200 km que vamos dividir em 3 dias, primeiro até Uberaba, depois Brasília, onde pretendemos conhecer um pouquinho da capital do nosso país, chegando a chapada no terceiro dia.

Minha moto ganhou dois acessórios, um protetor de motor que coloquei na Silverstone Moto aqui em São Paulo e os afastadores de alforge, que foram a saga para serem encontrados.

Minha moto nas mãos de uma lenda viva do motociclismo, Sylvestre Paschoal
Minha moto nas mãos de uma lenda viva do motociclismo, Sylvestre Paschoal
Afastador de alforge devidamente instalado
Afastador de alforge devidamente instalado

Os originais vem num kit com os alforges, o que encarece muito. Na Silverstone estava em desenvolvimento um modelo, mas ainda sem previsão de data para comercialização. Tentei mandar fabricar, afinal é um simples pedaço de metal sem segredo… muita gente me indicou a Adão Metais, mas quando cheguei lá o próprio Adão disse simplesmente que não fazia, até perguntei surpresa: “mas não faz de jeito nenhum?” Aí ele explicou que podia ver se fazia dali alguns meses mas para isso teria que levar a moto para a fábrica por uns dias etc e tal. A saga só terminou quando um amigo mandou o link dos afastadores a venda no Ali Express que foi onde comprei e, um mês depois meu problema estava resolvido. Bom, eu tentei valorizar um produto de fabricação nacional, mais artesanal, mas se nossos comerciantes daqui não se interessam por este mercado a gente busca outros fornecedores e, claro, se não se interessou em resolver o meu problema agora, pode ter certeza de que quando eu for pesquisar outros produtos para moto e afins, também escolherei outras lojas, nada mais justo, não? ;)

A bonnie está com uns 2.600 km rodados e o que posso dizer é que é uma moto incrível e que reflete exatamente o que eu estava buscando, uma moto mais robusta para longas viagens, com a força necessária para as ultrapassagens em maior segurança e, principalmente, uma moto extremamente estável. Nela, se for pra balançar algo com o vento será você e não a moto. E além de tudo, é linda, um estilo retrô que é o meu preferido e combina com meu estilo de pilotagem pois não é uma moto para os amantes da esportividade e velocidade, embora sim, ela seja uma moto veloz, mas uma moto com aceleração suave porém presente no momento em que precisar.

Thiago também fez alguns ajustes na moto dele, a XT 600: novos farois de milha e um suporte no baú para bagagem, além da revisão.

E agora é só curtir!

Moto nova e viagem